
De Docta Ignorantia
(À memória de Nicolau de Cusa)
Se não soubermos como é nosso o mundo,
e que sabemos dele apenas o que tivermos feito,
e que fazemos só a morte que não foi em vão,
e que não foi em vão quanto nascer de novo
é o muito que sofremos para descobrir
que a descoberta é recordar sem tempo
o tempo exacto qual medido em vidas –
Se não soubermos que a vida é um salto brusco
do inanimado às vidas que se encontram
na quantidade em que a si mesmas se erguem,
até que ter falado é o ser que nunca fomos,
o ser que não seremos, mas o puro
início de lembrar o igual de tudo –
Se não soubermos que os iguais transformam
em único e mortal o que é sinal de um só
que se conhece e conhecendo esquece
como ter visto é terem outros visto
o que, entretanto, em nós se transmutou –
Se não soubermos, como saberemos?
E como criaremos? Qual eternidade
terá sentido, irá como uma seta
ao fim que não acaba, em que se cumpre
o próprio fundamento, a porta, o tecto,
a constelado céu de acasos conquistados?
Se não soubermos, como não saber?
Jorge de Sena
(in “Fidelidade”, 1958)