O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Miguel Torga: Viagem

É o vento que me leva.
O vento lusitano.
É este sopro humano
Universal
Que enfuna a inquietação de Portugal.
É esta fúria de loucura mansa
Que tudo alcança
Sem alcançar.
Que vai de céu em céu,
De mar em mar,
Até nunca chegar.
E esta tentação de me encontrar
Mais rico de amargura
Nas pausas da ventura
De me procurar...

Miguel Torga in Diário XII

sábado, 3 de janeiro de 2009

Pacto em pura perda? - a propósito da postagem de um texto de Cioran



Mais uma vez, por imperativo da dimensão do comentário que determinado texto aqui postado me suscitou (no caso um excelente texto de Cioran, muito pertinentemente postado por Paulo Borges, e titulado “Caústicos – Os Santos”), faço-o como post, para não atamancar, como eu acho desrespeitosamente, um local que deve ser de breves comentários de partilha ou de um certo confrontar de posições e de opiniões.
A questão que levanta Cioran, a questão aguda que levanta Paulo Borges, é das mais interessantes, desafiantes e apaixonantes para o pensar, seja ele “filosófico” ou “teológico”.
Trata-se do problema de saber até que ponto, falando aqui por exemplar metáfora, o prólogo do livro de Job não é o paradigma do que se passa com todos nós, e sobremaneira com todo o homem que se queira “sincero e recto” (Job 1,1): no limite, a necessidade incortornável da presença “probadora” do mal, para que o bem, e sua virtude, isto é, o seu poder, possa manifestar-se em firmeza e, sobretudo, em transcendência de si.
São Máximo o Confessor, num texto que cito aqui de memória (e perdoe-se-me, por isso, algum pendor parafrásico no citá-lo), diz que “os homens santos, na verdade, não escolhem entre o bem e o mal, posto que, sendo vivos tabernáculos do Espírito de Deus, e aderindo a sua alma espontaneamente à Sua Presença neles, têm já o seu espírito acima do imperativo de escolha que advém de tal arbítrio: por isso, são realmente livres”.
Por isso também, ninguém é verdadeira e radicalmente provado num ambiente asséptico e, por assim dizer, “burguês”: isso seria jogar “fazendo batota” com Deus.
É fácil ser virtuoso quando não se tem, aparentemente, melhor vantagem em o não ser. Esta é, no fundo, porventura, a lógica do delinquente e do vulgar criminoso.
É fácil ser caridoso, podendo sê-lo, por querê-lo e por muito ter, dando um pouco (que muito será para quem nada tenha) daquele muito que por certo lhe sobeje. Mas sê-lo-ia, esse mesmo “caridoso”, na mesma medida se quase nada tivesse?
Quem é mais "caridoso"? Um homem poderoso que se presta interesseiramente ao mecenato, assim obtendo conhecidas vantagens fiscais e outras para continuar mais e mais rico, ou quem dê do que lhe faz falta, sem ver a quem e sem fazer juízos de valor quanto à bondade da sua acção - e não como agora se ouve, entre nós, quem governa auto-elogiar a “bondade” das suas acções ou medidas, como se quem governa lá estivesse para fazer outra coisa senão apenas isso…
O ponto em que temos de questionar-nos é o seguinte: seríamos nós diferentes, e em que medida o seríamos, se Deus (ou como queiramos chamar ao grande nexo de sentido das coisas no nosso viver) acedesse, relativamente a nós, a “estender a sua mão” (Job, 1, 11), “tocar em tudo quanto temos”(id.), para assim ver “se não blasfemaríamos d’Ele”(id.) abertamente, na Sua face, na Sua presença em nós?
Talvez, como se diz também no livro de Job, em passagem logo a seguir, Deus permita, como porventura podemos admitir que o faça a muitos dos nossos contemporâneos (seja em cenários de guerra, em territórios ocupados por americanos ou sionitas, por chineses ou outros, ou até por povos “ocupados” pelos seus próprios governos “legitimamente” eleitos numa não verdadeira escolha de alternativas eleitorais) em que, dizíamos, o vírus do mal - vírus é, por certo, linguagem mais compreensível para os nossos dias – infecte tudo na vida menos a alma que sobrevive intacta a todo o terror, a toda a extrema miséria e abandono, situações nas quais se evidencia que o que é verdadeira “propriedade privada” não é transaccionável nem especulável em bolsa (de outros valores), pelos que fazem no teatro deste mundo as vezes de Satanás, qual ele o faz em parábola no livro de Job.
O que se mostra então é a imensa volatilidade daquilo que é a nossa vida, daquilo que sejamos se dela retirarmos tudo aquilo que tenhamos, que seja mera posse, aquilo que sejam as circunstâncias mais ou menos lustrosas em que nos movamos, e o que nelas sejamos.
Quem seremos, o que será de nós, se de tudo que não é realmente o que nós “somos”, formos nós despojados?
Isso, como se vê por exemplos bem recentes, pode acontecer até àqueles que aparentemente estariam (naquilo que supomos e imaginamos) mais precavidos e resguardados contra tais perigos e, estultamente, mais seguros estavam de que tal nunca poderia acontecer-lhes: tal como em Sodoma, no tempo de Lot, não muito diferente do nosso, na verdade, “comiam, bebiam, compravam, vendiam, plantavam e edificavam” (Lc. 17,28), em toda “a grande cidade que reina sobre os reis da terra” (Apo. 17,18).
A voz do poeta de “O Outro Livro de Job”, Miguel Torga, aqui me ocorre, do “Cântico do Homem”(1950), no seu poema “Há Ratoeiras”:


Quando vierem, como feiticeiros,
Tirar-te o espírito do corpo,
Obstina-te, irmão!
Não,
Não
E não!,
Seja qual for a habilidade
E a humanidade
Da encantação.

Lembra-te dum cortiço!
O que ferve lá dentro e dá favos de mel,
É que presta.

Mas se querem a festa
Da tua morte,
Então,
Que levem tudo no caixão:
A alma e o suporte!

Este é, porventura, o canto de quem já pouco espera do homem, ainda que indeciso esteja do que deva esperar de Deus.
Este é o canto de quem muito quereria esperar do homem, mas está quase resignado a nada esperar de Deus.
Onde estamos nós nisto, cada um de nós?
(Gratíssimo, Paulo!)