O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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terça-feira, 5 de janeiro de 2010

A Perfeição

Então Calipso, pensativa, lançando sobre os seus cabelos anelados um véu da cor do açafrão, caminhou para a orla do mar, através dos prados, numa pressa que lhe enrodilhava a túnica, à maneira de uma espuma leve, em torno das pernas redondas e róseas. Tão levemente pisou a areia, que o magnânimo Ulisses não a sentiu deslizar, perdido na contemplação das águas lustrosas, com a negra barba entre as mãos, aliviando em gemidos o peso do seu coração. A Deusa sorriu, com fugitiva e soberana amargura. Depois, pousando no vasto ombro do herói os seus dedos tão claros como os de Eos, mãe do dia:
_Não te lamentes mais, desgraçado, nem te consumas, olhando o mar! Os deuses, que me são superiores pela inteligência e pela vontade, determinam que tu partas, afrontes a inconstância dos ventos, e calques de novo a terra da pátria...
Bruscamente, como o condor fendendo sobre a presa, o divino Ulisses, com a face assombrada, saltou da rocha musgosa:
_Oh deusa, tu dizes!...
Ela continuou sossegadamente, com os formosos braços pendidos, enrodilhados no véu cor de açafrão, enquanto a vaga rolava, mais doce e cantante, no amoroso respeito da sua presença divina:
_Bem sabes que não tenho naves de alta proa, nem remadores de rijo peito, nem piloto amigo das estrelas, que te conduzam...Mas certamente confiarei o machado de bronze que foi do meu pai, para tu abateres as árvores que eu te marcar, e construíres uma jangada em que embarques...Depois eu a proverei de odres de vinho, de comidas perfeitas, e a impelirei com um sopro amigo para o mar indomado...

Eça de Queiroz
. Contos. Edição «Livros do Brasil» Lisboa. (pp. 233)

domingo, 20 de setembro de 2009

2º Campeonato Nacional de Escrita Criativa

Recebi hoje esta mensagem no Facebook, que desejo partilhar com os serpentinos que gostam de escrever:

"É já em Outubro de 2009 que vai iniciar-se o 2º CAMPEONATO NACIONAL DE ESCRITA CRIATIVA, uma prova semanal de escrita, enviada via e-mail para os concorrentes – e avaliada por um júri composto por pessoas da área das letras. E assim, durante 12 semanas, se viaja pelos territórios da escrita e da criatividade.

O prémio para o vencedor – e, eventualmente, para o segundo classificado (se a qualidade assim o merecer) – é a publicação de uma obra da sua autoria.

As inscrições são limitadas.

Se pretende reservar, desde já, o seu lugar, por favor envie e-mail em branco para fabricadeescrita@gmail.com.

Responderemos, depois, com a ficha de inscrição (bem como modos de
pagamento) - para que tudo fique, oficialmente, efectivado.

(mais informações em www.escritacriativa.org)

A Organização.
Pedro Chagas Freitas"

Um bom domingo a todos

sábado, 17 de janeiro de 2009

A cintura é a parte mais importante

photography by Edward Weston, American, (1886-1958)


a cintura é a parte mais importante

do corpo de uma mulher,

o pequeno arco em que gira

todo o seu movimento.


para baixo e para cima fica a desordem

que as rotações imprimem:

imagens fugitivas, desfocadas,

de costelas, seios,

braços, ombros e cabelos;

ou virilhas, nádegas,

pernas múltiplas, como

na dança, sob a retina fotográfica.


formam-se assim linhas circulares,

pura luz,

mas com uma trajectória, que cria

o espaço e o tempo.


quem quisesse porém encontrar

um eixo vertical imóvel, ou seja,

possuir ilusoriamente a mulher,

teria de a pontuar no olhar, no meio

dos lábios, no umbigo,

no ponto mais sensível do clítoris,

na junção dos pés.



esta é a ciência antiga do tacto

- o que fixa o fluido,

e crucifica a carne

à eternidade do conceito.


Vítor Oliveira Jorge
“Pequeno Livro de Aforismos
Seguido de Algumas Alumiações”
Porto, 2005




sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Curso de Literatura Portuguesa na Galeria Matos Ferreira

MATOSFERREIRA - GALERIA DE ARTE

BAIRRO ALTO - Rua Luz Soriano, 18 / 1200 - 247 LISBOA * Tlf: 213 230 011 Tlm: 962 953 722

CURSO DE LITERATURA PORTUGUESA

Por DUARTE DRUMOND BRAGA

21 de Janeiro a 11 de Março / 2009

A GALERIA MATOS FERREIRA vai promover em parceria com a ASSOCIAÇÃO AGOSTINHO DA SILVA um interessante Curso sobre Literatura Portuguesa.

OBJECTIVO
O objectivo do Curso é fornecer um panorama da literatura portuguesa da geração de 70 até ao modernismo, um dos períodos mais ricos da nossa tradição literária.

O curso dividir-se-á em dois blocos, o primeiro dos quais respeitante ao período que vai de 1865 até às correntes finisseculares, e o segundo relativo ao modernismo, sendo que a primeira aula de cada bloco será sempre dedicada à necessária contextualização histórico-cultural.

PROGRAMA
I. Da Geração de 70 até às correntes do fim-de-século:
A geração de 70 e os caminhos do Fim-de-Século;
António Nobre: memória individual e memória nacional;
Cesário Verde: a transformação poética do mundo;
Os Pobres de Raul Brandão: a ficção no fim-de-século.

II. O Modernismo Português
O modernismo em Portugal e a modernidade estética;
Poesia de Teixeira de Pascoaes: panteísmo e saudade;
Introdução a Fernando Pessoa;
Alberto Caeiro: ignorância e revelação.

HORÁRIO, INSCRIÇÕES E PREÇO
As aulas serão realizadas em período pós-laboral às quartas-feiras, de 21 de Janeiro a 11 de Março, inclusivé, ou seja nos dias 21, 28, de Janeiro, dias 4, 11, 18 e 25 de Fevereiro e ainda nos dias 4 e 11 de Março, das 19h00 às 20h30.

O Curso tem um limite máximo de 20 (vinte) participantes. O seu preço é de EUR 70,00 (setenta euros), podendo ser pagos em duas prestações de EUR 35,00 cada, devendo a primeira ser paga até 28 de Janeiro e a segunda até 25 de Fevereiro. Inclui material de apoio e confere ainda o direito a certificado de participação.

Os interessados podem-se inscrever através do Tel 21 323 00 11, do Tlm 96 295 37 22, do Email: mfgaleria@netcabo.pt. Em qualquer das opções deverão indicar sempre o número de telemóvel para eventual contacto.

PERFIL DO FORMADOR
DUARTE DRUMOND BRAGA é licenciado em Estudos Portugueses pela FLUL - Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e prepara uma dissertação de mestrado em Estudos Comparatistas sobre literatura portuguesa do fim-de-século.
DUARTE BRAGA leccionou já também cursos sobre cultura e literatura portuguesa dos séculos XIX e XX. Tem publicado alguns trabalhos científicos sobre literatura, cultura e pensamento português, dentro dos quais se destaca a co-organização, com Paulo Borges, do volume "O Buda e o Budismo no Ocidente e na Cultura Portuguesa". Pertence à direcção da ASSOCIAÇÃO AGOSTINHO DA SILVA.