O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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terça-feira, 8 de junho de 2010

"Conhece-te a ti mesmo"

"Assim, "conhece-te a ti mesmo" tem, para lá do seu sentido psicológico mais acessível, outro mais difícil, mas essencial: "conhece-te a ti mesmo" não é tão somente uma expressão da advertência que o espírito dirige ao homem, mas a expressão da advertência solene que o espírito dirige a si próprio, é um renovar-se do espírito a si próprio, um regressar a si, um revelar-se a si mesmo. "Conhece-te a ti mesmo" significa, pois, conhece-te a ti como espírito, ou ser do ser, conhece em ti que a tua singular verdade é uno [sic] e a mesma com a verdade absoluta"

- José Marinho, Teoria do Ser e da Verdade, I, edição de Jorge Croce Rivera, Lisboa, INCM, 2009, p.197.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

"... é respeitando a diversidade em que tudo se manifesta, que podemos verdadeiramente afirmar a unidade para que tudo tende"

"O pensamento político tem como o religioso o grave escolho do dualismo. Mas há para além do pensamento dualista um pensamento unitário, como há para além do ser dicotómico um ser uno. No desenvolvimento da existência do homem singular ou do homem em sociedade se vão estabelecendo distinções entre alma e corpo, espírito e matéria, ideal e real, bem e mal, verdadeiro e falso, sábio e ignorante, governante e governado, nacionalismo e internacionalismo… Mas o homem que em cada uma delas se manifesta não está em qualquer delas inteiramente: assim numa ideia ou num sistema de ideias não está todo o pensamento do homem, assim num acto de amor ou numa vida de amor não está esgotado o amor.

Importa, pois, caminhar para além das opiniões, não por um desejo de que a unidade fosse, mas pela certeza de que existe. O sentimento de sermos implica unidade, mas uma é a unidade que nos é dada com o ser, e esta é obscura, precária, e para manter-se solicita o seu contrário; outra é a unidade pura e inalterável. Para ela a verdadeira vida é incessantemente caminhar, pois por ela tudo existe. Mas não é unidade absorvente, não é qualquer pálida e majestosa uniformidade. Realizamo-la não negando o que somos, mas procurando cada vez mais pura consciência do que tendemos a ser. E assim não há um partir para a unidade suprimindo a diversidade. Mas antes é respeitando a diversidade em que tudo se manifesta, que podemos verdadeiramente afirmar a unidade para que tudo tende"

- José Marinho, "Sociedade e Rebanho", in Ensaios de Aprofundamento e outros textos, Lisboa, INCM, 1995, p.127.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

"Pascoaes é um ser terrível..."

"Pascoaes é um ser terrível e a sua poesia, uma coisa imensa e prestigiosa, tornou-se-me fonte de tormento. Quando penso nas dificuldades extraordinárias a vencer para dar dela uma ideia digna, interpretar qualquer outro poeta em Portugal torna-se uma brincadeira.

[...]

No momento em que a Europa cientificada e tecnificada via o pomo da felicidade amadurecido na sempre enganosa árvore da vida, Teixeira de Pascoais diz-nos, e logo no título de um dos seus livros, que, se vemos proibido o céu, nos está também a terra proibida. A Renascença Portuguesa veio e passou, incompreendida como o poeta vidente, e, a falar verdade, um pouco ridicularizada.

Há razão para isso, devemos concordar. Na verdade, o programa parecia, e parece, inexequível. Acentuar-se-ia cada vez mais, e por diversas formas, o sentimento de que o céu está longe e a convicção de que temos de viver, como vis bichos, até à morte, de um modo ou de outro. É absurdo misturar deuses e homens, árvores e almas, paganismo e cristianismo, loucura e sabedoria, melancolia e ilimitada esperança. E assim, a Saudade, no momento de despertarem já para o sentido do perdido bem os próprios infernos, não chegou a despertar os seres da terra"

- José Marinho, Teixeira de Pascoaes, Poeta das Origens e da Saudade e outros textos, edição de Jorge Croce Rivera, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 2005, pp.398-399.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Sobressaltos - "É de crer que se contentem de soltar à nossa volta imensa gargalhada"

"O ser ou se revela um ou muitos. Em nós, ele é ao mesmo tempo uno e múltiplo, e assim como nos implicamos em cada uma das maneiras como somos, assim cada uma delas implica as outras. Assim também uma ligação íntima e substancial existe entre um homem e todos os outros, entre um ser e todos os outros seres, não sendo jamais viável a liberdade dum sem a liberdade de todos, o bem dum sem o bem de todos.
Assim vemos o filósofo digno desse nome não poder situar-se do lado do que define e determina pois a verdade está também no que indiferencia e indetermina.

O homem que se toma a si próprio como fim é considerado, em geral, como um néscio e dia virá em que ele próprio o verifique. Mas esta humanidade que se tomou a si própria como fim supõe-se sábia. Já dos longes do suposto passado se levantam não só os velhos deuses, mas os vultos fantasmáticos dos homens de outras eras. Já erguem suas frontes meditativas sobre o horizonte ainda velado para a maioria, já alguns podem ver como nos contemplam. Em breve nos julgarão. Mas é de crer que nada digam. É de crer que se contentem de soltar à nossa volta imensa gargalhada. Depois sumir-se-ão de novo, deixando esta estúpida humanidade com sua ciência pequenina e perigosa, sua arte frustrada, sua magra filosofia, cumprir o lôbrego destino para que se adianta inconsciente"

- José Marinho, Aforismos sobre o que mais importa, edição de Jorge Croce Rivera, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994, p.215.

Sem comentários.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Trans-Pátria - Para uma sabedoria da metamorfose

"Os povos, culturas, civilizações, tal qual os homens, não conseguem começar a realizar-se senão limitando-se. Este é, ao mesmo tempo, o modo como surgem para a vida e caminharão para a morte. Tendendo a fechar-se numa exígua e aniquiladora maneira de ser ou conceber, esquecem que aquela limitação pela qual se tornaram possíveis e atingiram a grandeza é a mesma pela qual morrem, quando deixam de a tomar como processo e a tomam como fim. Isto caracteriza, no entanto, os povos, culturas, civilizações, como os homens singulares: obstinam-se em manter-se por aquilo mesmo que os tornou possíveis, esquecendo ou ignorando que para nós, homens, no seio da arquipotente Natureza e perante a subtil solicitação do incriado, só persiste o que incessantemente se renova. "Não iremos além", clamam os pusilânimes no doloroso seio das metamorfoses. Isto significa que o sentido autêntico de verdade os desertou e, com ele, a potência de ser e subsistir"

- José Marinho, Aforismos sobre o que mais importa, Obras, I, edição de Jorge Croce Rivera, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994, pp.298-299.

Eis um trecho de um verdadeiro filósofo, expoente maior do pensamento português, lusófono e universal e, por isso, escassamente lido e parcamente compreendido, por aqueles mesmos que o lêem.

Que este trecho possa despertar todos os que tomam por definitiva e eterna, e como um fim em si, a forma transitória e contingente de um ser, uma pátria, uma cultura ou uma civilização. Ai de quem não for Proteu, o deus da metamorfose, figura paradigmática do ser universal, como o grande Antero de Quental anunciou!...

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Aquele a quem foi dado ser plenamente

"Aquele a quem foi dado ser plenamente como o em que se nega todo parcial ser, como o que vê e, no ver do que é, infinitamente ultrapassa todo ver e saber finito, esse, no mesmo instante em que frui a mais pura alegria, sabe para sempre toda a verdade"

- José Marinho, Teoria do Ser e da Verdade, Lisboa, Guimarães Editores, 1961, p.19.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Pacto em pura perda? - a propósito da postagem de um texto de Cioran



Mais uma vez, por imperativo da dimensão do comentário que determinado texto aqui postado me suscitou (no caso um excelente texto de Cioran, muito pertinentemente postado por Paulo Borges, e titulado “Caústicos – Os Santos”), faço-o como post, para não atamancar, como eu acho desrespeitosamente, um local que deve ser de breves comentários de partilha ou de um certo confrontar de posições e de opiniões.
A questão que levanta Cioran, a questão aguda que levanta Paulo Borges, é das mais interessantes, desafiantes e apaixonantes para o pensar, seja ele “filosófico” ou “teológico”.
Trata-se do problema de saber até que ponto, falando aqui por exemplar metáfora, o prólogo do livro de Job não é o paradigma do que se passa com todos nós, e sobremaneira com todo o homem que se queira “sincero e recto” (Job 1,1): no limite, a necessidade incortornável da presença “probadora” do mal, para que o bem, e sua virtude, isto é, o seu poder, possa manifestar-se em firmeza e, sobretudo, em transcendência de si.
São Máximo o Confessor, num texto que cito aqui de memória (e perdoe-se-me, por isso, algum pendor parafrásico no citá-lo), diz que “os homens santos, na verdade, não escolhem entre o bem e o mal, posto que, sendo vivos tabernáculos do Espírito de Deus, e aderindo a sua alma espontaneamente à Sua Presença neles, têm já o seu espírito acima do imperativo de escolha que advém de tal arbítrio: por isso, são realmente livres”.
Por isso também, ninguém é verdadeira e radicalmente provado num ambiente asséptico e, por assim dizer, “burguês”: isso seria jogar “fazendo batota” com Deus.
É fácil ser virtuoso quando não se tem, aparentemente, melhor vantagem em o não ser. Esta é, no fundo, porventura, a lógica do delinquente e do vulgar criminoso.
É fácil ser caridoso, podendo sê-lo, por querê-lo e por muito ter, dando um pouco (que muito será para quem nada tenha) daquele muito que por certo lhe sobeje. Mas sê-lo-ia, esse mesmo “caridoso”, na mesma medida se quase nada tivesse?
Quem é mais "caridoso"? Um homem poderoso que se presta interesseiramente ao mecenato, assim obtendo conhecidas vantagens fiscais e outras para continuar mais e mais rico, ou quem dê do que lhe faz falta, sem ver a quem e sem fazer juízos de valor quanto à bondade da sua acção - e não como agora se ouve, entre nós, quem governa auto-elogiar a “bondade” das suas acções ou medidas, como se quem governa lá estivesse para fazer outra coisa senão apenas isso…
O ponto em que temos de questionar-nos é o seguinte: seríamos nós diferentes, e em que medida o seríamos, se Deus (ou como queiramos chamar ao grande nexo de sentido das coisas no nosso viver) acedesse, relativamente a nós, a “estender a sua mão” (Job, 1, 11), “tocar em tudo quanto temos”(id.), para assim ver “se não blasfemaríamos d’Ele”(id.) abertamente, na Sua face, na Sua presença em nós?
Talvez, como se diz também no livro de Job, em passagem logo a seguir, Deus permita, como porventura podemos admitir que o faça a muitos dos nossos contemporâneos (seja em cenários de guerra, em territórios ocupados por americanos ou sionitas, por chineses ou outros, ou até por povos “ocupados” pelos seus próprios governos “legitimamente” eleitos numa não verdadeira escolha de alternativas eleitorais) em que, dizíamos, o vírus do mal - vírus é, por certo, linguagem mais compreensível para os nossos dias – infecte tudo na vida menos a alma que sobrevive intacta a todo o terror, a toda a extrema miséria e abandono, situações nas quais se evidencia que o que é verdadeira “propriedade privada” não é transaccionável nem especulável em bolsa (de outros valores), pelos que fazem no teatro deste mundo as vezes de Satanás, qual ele o faz em parábola no livro de Job.
O que se mostra então é a imensa volatilidade daquilo que é a nossa vida, daquilo que sejamos se dela retirarmos tudo aquilo que tenhamos, que seja mera posse, aquilo que sejam as circunstâncias mais ou menos lustrosas em que nos movamos, e o que nelas sejamos.
Quem seremos, o que será de nós, se de tudo que não é realmente o que nós “somos”, formos nós despojados?
Isso, como se vê por exemplos bem recentes, pode acontecer até àqueles que aparentemente estariam (naquilo que supomos e imaginamos) mais precavidos e resguardados contra tais perigos e, estultamente, mais seguros estavam de que tal nunca poderia acontecer-lhes: tal como em Sodoma, no tempo de Lot, não muito diferente do nosso, na verdade, “comiam, bebiam, compravam, vendiam, plantavam e edificavam” (Lc. 17,28), em toda “a grande cidade que reina sobre os reis da terra” (Apo. 17,18).
A voz do poeta de “O Outro Livro de Job”, Miguel Torga, aqui me ocorre, do “Cântico do Homem”(1950), no seu poema “Há Ratoeiras”:


Quando vierem, como feiticeiros,
Tirar-te o espírito do corpo,
Obstina-te, irmão!
Não,
Não
E não!,
Seja qual for a habilidade
E a humanidade
Da encantação.

Lembra-te dum cortiço!
O que ferve lá dentro e dá favos de mel,
É que presta.

Mas se querem a festa
Da tua morte,
Então,
Que levem tudo no caixão:
A alma e o suporte!

Este é, porventura, o canto de quem já pouco espera do homem, ainda que indeciso esteja do que deva esperar de Deus.
Este é o canto de quem muito quereria esperar do homem, mas está quase resignado a nada esperar de Deus.
Onde estamos nós nisto, cada um de nós?
(Gratíssimo, Paulo!)