O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Amazonas e Poetas

Sempre ouvi dizer que as Amazonas são corajosas guerreiras. Não conheci nenhuma. Garantem-me que não há quem se lhes assemelhe em bravura. As pedras que retiram com esforço do leito do rio ganham vida em contacto com o ar. Depois de moldadas, o animal ou o objecto que delas se forma solta o seu poder e sortilégio. Os homens temem-nas. Elas correram mundo no seu tempo e espalharam-se pelos continentes, por ilhas, junto da água, as amazonas fortificaram, pois é com esse elemento que tonificam e apuram todos os seus poderes. São filhas da mudança, do vento, e com ele cavalgam sempre em busca. O que buscam essas mulheres? O que as faz travar vigorosas batalhas e cuidar-se para que o seu corpo seja são e forte? Como fazem para sobreviver sozinhas? Que culpa expiam? Embelezam-se para a Festa das Rosas e perseguem a sua presa com tamanha coragem e beleza, que a culpa transforma em misto de medo e desejo os homens que as avistam. Sabem-se unidas pela força da abdicação e do inconformismo. Criaram uma sociedade à parte. De que abdicam estas mulheres temíveis? Abdicam de ser rainhas. Abdicam da sombra. Querem a luz e a coroa. Vão em busca do amante para a festa das rosas, essas mulheres temíveis. Mas não é a Rosa que buscam, tão só o filho delas. O filho da Rosa para criar e entregar ao mundo que lhes foi usurpado – Talvez estas mulheres não existam mesmo, e sejam a forma materializado do medo e da culpa – Só de uma coisa essas guerreiras não abdicam, a coisa da maternidade. E essa grande causa as mantém unidas. São cada vez menos raras as mulheres guerreiras, as amazonas. Dizem que, quando a pedra do rio ou a pedra da lua se transforma em serpente, se tornam invencíveis. Só são vulneráveis ao Amor. Só ele as faz perder batalhas. O amor cego e a paixão violenta são simultaneamente a sua maior fragilidade e a causa da sua invencível determinação para a vitória. É dessas águas agitadas que retiram a sua força de vencedoras. Sujeitas à cegueira do amor, algumas delas têm caído por terra e deposto as armas. E as armas das amazonas são talhadas e afiadas com extremo cuidado e sabedoria.
Dizem-me que está mal e que pecaram essas mulheres, por não aceitarem o seu destino. Não digo que sim nem que não. Não sou guerreira. As minhas armas são a compaixão e a benevolência. Digo que em qualquer sociedade todos os papéis são necessários e que a ordem e a hierarquia deveria surgir sempre da sensatez, da sabedoria e da bondade. Nisto acredito. Os poetas, os filósofos, os místicos serão sempre como as Amazonas. Em vez de armas, soltam as palavras e elevam o coração, e andam sozinhos pelas estradas e caminhos. Por vezes, nem sabem o que buscam... Caminham sós, para onde os leva o vento, ou uma ideia perdida. Mas, mais cedo ou mais tarde, terão que escolher. Se não forem banidos pela sociedade organizada, onde pertencem e não pertencem, onde estão e não estão. Pois que vivem em duplo, a vida se encarregará de expulsar um deles, ou fazê-lo exilado por vontade própria. Quando se vive em duplo, a realidade é e não é. Não há certezas. E não há lugar para a incerteza e para a dúvida, em nenhuma sociedade conhecida. Têm que se amputar de uma parte de si, os poetas à solta, os verdadeiros filósofos, os místicos de todas as crenças. Permanecendo íntegros, serão desintegrados e deportados. Por vezes, parecem indiferentes aos factos reais, estes seres que levam como sinal, uma estrela ou uma rosa. Mas não se julgue precipitadamente que são dementes ou iludidos: errantes, estrangeiros, mendigos, parecem ser. Nem belos como as amazonas são. Insignificante é a sua aparência. Sabem que não existem sem questionar ou sonhar. Sabem-se condenados. Às vezes ganham mundo e desaparecem, outras vão atrás de causas e tornam-se revolucionários e abdicam e partem de novo, engolindo vento à procura do que deixaram. Nunca se sentirão satisfeitos. Como as amazonas, parecem perigosos, mas mais do que elas têm as suas fragilidades. Amam a pátria, mas a sua pátria fica longe. Amam o Amor, mas nisso se tornam cavaleiros insaciáveis, pois o amor tem longos braços. Não podem ser negociantes, os poetas e as Amazonas, pois tampouco abdicam de princípios de honestidade e lealdade. Serão o que são e o que não são. Trocam os pés ao andar e desaparecem tragados pelo pó, como malteses. Parecem bêbados, com um pé na realidade que vai com eles e o outro a querer ficar.
E os filhos do mal, os traiçoeiros, os ambiciosos, os sedentos de poder? Qual o seu lugar na sociedade? O seu papel é enorme. É predominante. São os protagonistas de uma história virada do avesso que andamos a viver há muito tempo. Não há na realidade tipos sociais. Há pessoas. Quem disse que um poeta não pode ser guerreiro e místico e filósofo? Quem disse que uma Amazona não pode cuidar dos seus filhos amá-los e separar-se deles para que sejam pais, filhos e irmãos de todos? Quem disse que quem é guerreiro, não pode cultivar rosas, e amá-las, antes ou depois da batalha? Quem disse que há castas puras e tipos sociais definidos a régua e a castigo? Quem diz que se nasce e morre com certezas acerca do nosso papel social na vida e acerca da vida? Creio, do que conheço, que não há tipos sociais puros e que para além do que sonhamos há ainda o que somos e vice-versa, e não sabemos o que somos, tão só o que sonhamos. Homens e mulheres, guerreiros, negociantes, vigaristas, mentirosos, filósofos, poetas místicos e crentes, governados e governantes, súbditos e vassalos; admiradores e admirados. Tudo tipos mistos, humanos. O meu sonho não é de castas. O meu reino é dos simples. O rio dos poetas não corre por nenhum objectivo. Corre. A minha utopia não é só uma ideia. Temos todos a obrigação de respeitar e cuidar. E já percebemos que só pode ser Rei aquele que, por exemplos, palavras e obras está mais próximo do Pai. Aceita a bondade como coroa, a fraternidade como ceptro e o silêncio e a sabedoria como escudos contra as injúrias e a ignorância. Não podemos esquecer que o reinado é uma ilusão e estamos aqui de passagem. E às vezes estamos só de viagem ou nem sabemos se cá estamos e o que é esse “cá estar”. Porque não é Rei quem quer, nem quem nasceu fidalgo e nobre, mas quem ouve do seu povo aclamação e se deita não convencido de si, mas convencido que ainda pode fazer melhor, pela Pátria e pela Frátria. Reinar é semear. E quem se convence é vencido. A impotência dos deuses não escapa ao Fado. E do Fado, nem humanos nem deuses conhecem os propósitos.

Para o Paulo Feitais, para ele saber que o seu coração está na Serpente e que tenho Saudades do futuro que corre para o passado. Para uma princesa que está no rio a moldar uma pedra em forma de coração a sangrar.