
Para a Anita, esta canção de pernas para o ar, no baloiço do tempo que vai a girar, vai o Sol e a Lua...
Os olhos à procura do som que ainda havia, na noite vazia.
Entre estrela e canto, entre a serra e o mar se perdeu
O vaso onde, à tardinha, era tarde para o dia, e a voz se perdia
E a estrela guardada na arca do vento estremecia. Era o ar, era o dia
A girar as girândolas, as estrelas e as rosas de toucar
A canção da noite cantada, suspensa num lenço
De arder e de rir. Havia canções para quando o tempo
Viesse outra vez libertar a noite que vazia ria
Sem chegar nem partir nem faltar nem cair do chão do ar
Diadema de ouro suspenso na coroa da criança nascida
Ontem à tardinha, quase noite, quase dia, oculto havia
Pendurado na lua um baloiço de luz que a noite vinha
Empurrar como um berço, ao tempo. A mãe sonhava:
Ai que linda infanta que vai a voar, a soltar os sopros
Para lá da roseira que havia na casa, na casa suspensa
Na barca do tempo. Roseira de cantos virados para o mar
Caminhos de neve de pés azulados, na tarde dormente
Dos gestos cansados, rosados de amar. Ai que linda rosa
Que tarda em chegar, vem no pó da noite que deita o luar.
Ai que bela noiva para o dia noivo, que pé tão rosado
Que a fada madrinha dançará na noite da tarde tardinha
Que já cá chegou e esperou pela noite entrada na vinha
Da tristeza alegre da cara que tinha a coroada rainha
Fada que dormia, veio soprar-lhe o dia no jardim sonhado.

