O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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terça-feira, 19 de agosto de 2008

A saga do Homem-formiga

O ser humano
é um animal domesticado,
vive no grande circo do mundo
como leão enjaulado.
Não haverá ele de ser chato?...
Chato é pouco!
A comichão de estar
fora do corpo
atordoa-lhe o sentido...
como o formigueiro nos pés
que se levantam no ar.
Ser homem-formiga
em vez de poeta-cigarra
fá-lo viver fora de casa,
como trabalhador vagabundo
perdido da própria alma.

O Homem-filho entrou
em oposição
com a Mãe-Terra
e nessa guerra
se deixou
sem mais questionar
o seu porquê,
sem querer descobrir
a única via que lhe interessa,
a de a ela de novo se unir
e então viver a vida a sér-io,
ser mãe e filho de pleno direito,
cantar a vida de peito aberto,
ser criança livre
e poeta a tempo inteiro...
eterno.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Nem título provisório

Tarde de Verão...
Uma leve brisa de ar percorre a montanha levando os habitantes de uma próxima povoação a reunirem-se de emergência por debaixo do velho Salgueiro, à porta do café germinado.
Finda a hora do almoço, já em meia-volta para o abrigo, Pedro descobre duas das suas ovelhas totalmente remoídas. Se o rebanho tivesse mil cabeças era motivo provável para nem se preocupar, há comida para nós e para eles, iria pensar.
A natureza planeara um ataque a treze ovelhas, que no seu reduto proporcionavam o acrescido ganha-pão ao mestre Carpinteiro.
João, velho Ansião, negociante e contrabandista de profissão havia declarado o estado de emergência... Há que contactar aqueles que regem as leis naturais da coabitação Homem-Bicho! - apelou.
Seria de esperar, após uma fervorosa troca de ideias, um ataque em massa (respeitando a ideia do autor), com batedores experientes, aos causadores da imensa tragédia, mas não. Impôs-se o bom senso e... ânimos acalmados.
Com o auxílio dum lápis de refugo, de umas palavras desenhadas e frases bem construídas, foi redigida a missiva à autoridade regulamentadora.
Pedro sente-se mais calmo, e claro está, qualquer tostão que venha sempre será bem empregue e embora escasso poderá vir a remediar a compra de um borrego, ou mesmo os dois.
A época do ano não era favorável.
O Outono aproximava-se…
O Outono veio e com ele o esquecimento.
Desfeita a reunião, emitida e enviada a carta, declarou-se o fim do trabalho selado com duas fatias do outro presunto e um tinto fresco, para manter saúde.
Já a geada cortava quando a tragédia bateu à porta...
Um Inverno-Rei ceifando a vida a mais umas quantas canhonas.
Seis no total, repartidas por Pedro, duas novamente, Zé da Montanha três e João com a restante.
Deveria ter chegado uma resposta mas nem por ela se ouviu...
O estado de emergência fora novamente declarado.
Com a população abrigada em frente ao café, intimada pela trovoada, foram apresentados os factos. Ouviram-se opiniões... chegou-se ao consenso.
Tomada a decisão...
Veio a madrugada e os sinos a rebate.
Uns e outros chegavam lentamente... agasalhos de palha em deslocação ao centro, marcas de sangue na ponte velha... setas, a indicar o caminho a percorrer... olhos expectantes, arregalados em contraste com outros, agora sem vida.
O Salgueiro era deus, o tampo de granito, o altar e em cima, Homem-Bicho finalmente em repouso, gozando a eternidade... num silêncio de bosque, humanamente vazio.
21 de Setembro de 1997
(sem título)
E assim continuará,
seja talvez essa a verdadeira lição...
(0hours left)
Vergílio Torres