O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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sábado, 27 de dezembro de 2008

"É Natal, ninguém leva a mal!" - III (fim)

Se uma estreita relação se mantém, durante toda a Antiguidade e Idade Média, entre “loucos religiosos e profanos”, consoante a crença nos dons espirituais, de clarividência, profecia e cura, do bobo da corte, e se Festas como a dos Loucos, do Burro e dos Inocentes significativamente só persistem, com vitalidade, enquanto permanece intensa a própria vivência religiosa, declinando com o aburguesamento racionalista que visa excluir a loucura da vida espiritual e social, aí onde Brant a exorciza e Erasmo faz o seu irónico elogio, inconscientemente fúnebre, começando o moderno universo concentracionário e correccionário descrito por Michel Foucault na História da Loucura na Idade Clássica - o que, pensando no famoso quadro de Brueghel, resulta numa autêntica vitória da Quaresma clerical e reformadora sobre o Carnaval popular e tradicional - , não é menos verdade que o louco divino excede o cada vez mais funcionalizado e profissionalizado bobo da corte, na exacta medida do excesso da sua liberdade relativamente a todos os poderes instituídos, e que a divina loucura do total descentramento de uma santidade que se oculta e desconhece transcende a mera catártica descompressão das pulsões e dos instintos individuais e colectivos, geralmente destinada a confirmar e reforçar a ordem vigente, sendo terapeuticamente canalizada para uma vivência mais plena da habitual vida religiosa, conforme o elucida o texto justificativo das Festas dos Loucos, em 1444, pela Faculdade de Teologia de Paris: “Os nossos eminentes antepassados permitiram esta festa. Porque deveria ela ser-nos interdita ? Não festejamos seriamente, mas por pura brincadeira, para nos divertirmos segundo a tradição, para que, ao menos uma vez por ano, nos abandonemos à loucura, que é a nossa segunda natureza e parece ser-nos inata. Os tonéis de vinho rebentariam se não se abrisse de vez em quando o batoque para os arejar. Ora nós somos velhas naves e tonéis mal ajustados que o vinho da sabedoria quebraria se o deixássemos ferver assim por uma devoção contínua ao serviço divino. (...) É por isso que entregamos alguns dias aos jogos e às bobices a fim voltar de seguida com mais alegria e fervor ao estudo e aos exercícios da religião”.
Parece-nos, todavia, que um outro sentido e motivo, mais profundo que o da mera catarse psicossocial, e mais coerente com a radicalização da louca irrisão de si e do mundo, que encontrámos nos loucos por amor de Deus, se encerra tradicionalmente nestas práticas, porventura já inconscientemente vivido ou quiçá dispensador da necessidade da consciência para que seja operativamente eficaz. Conforme apontámos a propósito de Mestre Eckhart, perguntamo-nos se nesta cáustica e caótica violação e suspensão de todos os respeitos, por ocasião e no seio da própria liturgia religiosa, não se tratará de estender ao sagrado e ao divino, às coisas tidas por mais sacrossantas, aquele libertador iconoclasmo do espírito que se recusa a aceitar como digno de veneração e culto tudo o que se lhe depare, quer como exterior e extrínseco, quer como princípio, fundamento e estrutura de uma ordem de formas, determinações, medidas e limites, e que não possa transcender e reintegrar infinitamente na sua própria auto-transcensão como sujeito de um mundo de representações e objectos que, na exacta medida da sua apresentação como sagrados e divinos, se constituem como os mais dissimulados ídolos que acima de tudo importa reconhecer e desconstruir. Quer por via negativa, na inversão e suspensão do mundo religiosa, moral e socialmente correcto, quer por via positiva, na experiência de uma liberdade face a toda a determinação divina, humana ou outra do ser, emergente na possibilidade da carnavalesca mutação das formas e das aparências, e na orgiástica abolição de todas as fronteiras entre sagrado e profano, céu e terra, masculino e feminino, indivíduo e mundo, homem e Deus, aquilo que surge como um sacrilégio pode veicular uma libertação que, noutro sentido, pode ser vista como a mais elevada forma de cumprimento do sentido da religião e de experiência do sagrado, enquanto vivência do Infinito que abole todas as mediações. Isto com a condição de começar e terminar por destituir a idolatria do egocentrismo, não se detendo numa mera prática do irrespeito e da licença por um sujeito que se ria de tudo sem nunca haver rido de si, supondo que no seu iconoclasmo se está efectivamente a libertar de algo que não das suas próprias e ilusórias projecções e representações, a começar pela da sua suposta solidez e autarquia ontológica.
E, se porventura estamos aqui perante uma dessas manifestações da verdade que excede as possibilidades comuns do entendimento e, sobretudo, da vivência, convém declararmos que estas são, antes de mais, e obviamente, as nossas...

- "Da Loucura da Cruz à Festa dos Loucos. Loucura, sabedoria e santidade no cristianismo", in Paulo Borges, Do Finistérreo Pensar, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2001, pp.154-156 (as notas de rodapé foram suprimidas).

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

"É Natal, ninguém leva a mal!" - II

As Festas dos Loucos, “festum stultorum”, “fatuorum” ou “follorum”, do Burro e dos Inocentes, celebradas, consoante os locais, em diversos dias do referido período, quase se identificam e confundem . Promovidas pelo baixo clero, em particular pelos subdiáconos, são testemunhadas desde o final do século XII até ao do século XVI, com raros prolongamentos pelo século seguinte, quando as constantes condenações e proibições dos vários concílios episcopais, aliadas à intervenção de um poder real centralizado, que agora se leva mais a sério e dispensou já o espelho de verdade que era o bobo da corte, as restringem ou fazem desaparecer, pelo menos das igrejas, dando porventura origem às confrarias seculares, as “companhias dos loucos”, que, procedentes agora da burguesia, as continuarão sob a forma de festejos carnavalescos laicos. Nelas se elegia, entre os subdiáconos, e a exemplo das Saturnais e dos vários reis carnavalescos, um “dominus festi”, um burlesco soberano da festa, vulgarmente designado como “Bispo” e, por vezes, “Papa dos Loucos”, o qual assumia toda a autoridade durante o período dos festejos. Momento marcante é, em plena eucaristia, a transmissão simbólica do “baculus”, do dignitário do ano anterior para o novo, quando significativamente se entoam os versos do Magnificat, “Deposuit potentes de sede: et exaltavit humiles”, que referem a escatológica inversão, por Cristo, da ordem do mundo, exaltando os humildes, destituindo os poderosos. Este rito é o centro de um conjunto de sistemáticas e metódicas, mas também espontâneas, transgressões, paródias, blasfémias e sacrilégios. Como escreve, em 1445, o deão da Faculdade de Teologia da Universidade de Paris, numa carta condenatória dirigida aos bispos e cabidos de França: “Padres e clérigos podem ver-se usando máscaras e aparências monstruosas nas horas do ofício. Dançam no coro vestidos de mulheres, lacaios ou menestréis. Cantam canções licenciosas. Comem chouriços pretos no altar enquanto o oficiante diz a missa. Jogam aí aos dados. Incensam com um fumo fétido procedente da sola de sapatos velhos. Correm e pulam pela igreja, sem corar da sua vergonha. Viajam finalmente pela cidade e seus teatros em miseráveis carruagens e carroças; e suscitam o riso dos seus companheiros e circunstantes através de representações infames, com trejeitos indecentes e versos torpes e libertinos”. Ainda em 1645, numa igreja franciscana, o Dia dos Inocentes foi comemorado, segundo relata em carta a Gassendi um seu discípulo livre-pensador, com a entrega da celebração aos irmãos leigos, pedintes, cozinheiros e jardineiros, com as vestes do avesso, os livros voltados para baixo, cascas de laranja como óculos, soprando as cinzas dos incensórios sobre os rostos e cabeças uns dos outros e cantando a liturgia num palavreado incompreensível. No que respeita à Festa do Burro, por vezes indistinta da dos Loucos, note-se que a sua figura central é um animal de simbolismo ambíguo, entre a “ignorância” e a “obscuridade” satânica e a “humildade”, a “pobreza”, a “paciência” e a “paz” cristãs, também clarividente, como no episódio de Balaão (Números, 22, 22-35), e de qualquer modo profundamente ligado à vida de Cristo. A singularidade é aqui a introdução de um burro no altar, durante uma missa solene em que momentos fulcrais como o Kyrie, o Gloria e o Credo terminam com zurros. No final o oficiante zurra três vezes e os assistentes respondem de igual modo, numa desfiguração cacofónica e burlesca de toda a seriedade e compostura litúrgica, conforme se pode constatar na reconstituição musical contemporaneamente feita pelo Clemencic Consort. Conforme o relato de John Huss, numa Festa dos Loucos na qual participou, para seu remorso, quando menino, o clérigo eleito “Bispo” era colocado sobre um burro, o rosto voltado para a cauda, sendo assim levado à missa, na qual presidia à folia geral.

- "Da Loucura da Cruz à Festa dos Loucos. Loucura, sabedoria e santidade no cristianismo", in Paulo Borges, Do Finistérreo Pensar, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2001, pp.151-154 (as notas de rodapé foram suprimidas).

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

´"É Natal, ninguém leva a mal!" - I



Intitulado com um dito de um mascarado de Trás-os-Montes inicio aqui a publicação da parte final de um estudo já editado, em homenagem ao espírito arcaico, esquecido e encoberto desta época natalícia, o da Folia caósmica e metamórfica, hoje transformado no da folia consumista, festiva e desvairada emergência ainda da Festa da liberdade primordial e da saudade de tudo-nada ser.

...

É a mais que divina transgressão do divino, a trans-religiosa transgressão do religioso, a transcendência do transcendente, que encontramos, já não no contexto da cultura erudita, mas no da cultura popular, na arcaica tradição ritual e festiva que desponta, em pleno seio do medievo cristão e nas camadas mais baixas do clero, nas Festas dos Loucos, do Burro e dos Inocentes. Parecem constituir-se estas como novas formas das arcaicas e cíclicas festas de renovação e fecundação cósmica, por recriação do Caos primordial ou da originária Idade de Ouro, nos períodos de fim e início do Ano, nesse intervalo de doze dias, por vezes prolongados, que se crê não terem lugar no calendário temporal. Neles se suspende a ordem cósmica, reemergindo a liberdade primordial, anterior à constituição do universo das determinações, com a aparente solidez das diferenciações e formas ônticas, instituídas, funcionalizadas e hierarquizadas em supostos lugares naturais, e com a lei que estabelece as suas medidas e relações no plano cósmico e social. Tais festividades consistem assim na vivência do “sagrado de transgressão” que, neste período, se substitui à do “sagrado de respeito”, violando os interditos e as regras que normalmente asseguram a conservação da ordem do mundo e das mentes, mas que agora importa ultrapassar e destituir para que a realidade se recrie na a-cósmica liberdade do Infinito primordial. É que a diferenciação, determinação e fixação dos entes em seus limites implica uma privação, quer da primordial liberdade da ausência de forma, quer da plasticidade e imprevisibilidade das metamorfoses criadoras, transitando-se do tudo ser simultaneamente possível para o confinamento das possibilidades à sua actualização apenas parcial, exclusiva e sucessiva, com o inevitável sacrifício e aprisionamento do excesso de energia vital na ordem de um mundo de formas que, também inevitavelmente, acabam por temporalmente se desgastar e sucumbir no processo da sua cristalização e erosão recíproca, na imanente tensão em que se inter-dissolvem reintegrando-se no infinito primordial, como o sugere o conhecido fragmento de Anaximandro. Nas festas a que nos referimos emerge então a sacralidade da subversão e inversão de todas as formas supostamente normais de ser, pensar e agir, traduzida na religiosa vivência do riso, da paródia, da blasfémia, do sacrilégio, da desmesura e do intercâmbio, metamorfose, fusão e indistinção das formas, por via do mascaramento, do travestimento, do jogo, da fantasia, da licença e do excesso sexual e alimentar, da inversão e suspensão das funções sociais, num paroxismo orgiástico que faz da loucura a regra num autêntico e carnavalesco mundo às avessas.
Celebrações como a dos Loucos, do Burro ou dos Inocentes, moldando a exaltação evangélica da divina loucura de um Deus e de um Reino às avessas da normalidade mundana à continuidade da tradição pagã das celebrações do solstício de Inverno, das Crónia gregas, das Saturnalia romanas e das Calendas de Janeiro, entre outras, fazem do período que se estende da segunda metade de Dezembro até à Epifania, a 6 de Janeiro, “um contínuo carnaval”, tradicionalmente designado como a “libertas Decembrica” e vivido num singular misto de elementos pagãos e cristãos. “Mascarada” que, como diz Jean-Paul, “sem nenhuma intenção impura, interverte o temporal e o espiritual e transtorna a ordem social e os costumes, na grande igualdade e liberdade da alegria”. Vejamos as mais significativas características e simbolismo desses festejos cuja descrição se imortalizou literariamente nalgumas páginas célebres de Victor Hugo e, mais recentemente, no cinema, com o Corcunda de Notre-Dame, da Walt Disney.

- "Da Loucura da Cruz à Festa dos Loucos. Loucura, sabedoria e santidade no cristianismo", in Paulo Borges, Do Finistérreo Pensar, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2001, pp.148-151 (as notas de rodapé foram suprimidas).