O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

folhinhas





“Dou-te um nome de água
para que cresças no silêncio.

Invento a alegria
da terra que habito
porque nela moro.

Invento do meu nada
esta pergunta.
(Nesta hora, aqui.)

Descubro esse contrário
que em si mesmo se abre:
ou alegria ou morte.

Silêncio e sol – verdade,
respiração apenas.

Amor, eu sei que vives
num breve país.

Os olhos imagino
e o beijo na cintura,
ó tão delgada.

Se é milagre existires,
teus pés nas minhas palmas.

O maravilha, existo
no mundo dos teus olhos.

O vida perfumada
cantando devagar.

Enleio-me na clara
dança do teu andar.

Por uma água tão pura
vale a pena viver.

Um teu joelho diz-me
a indizível paz.”

Teu Corpo Principia, de António Ramos Rosa

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

"Não queiras mais que a gratuita lucidez / do instante sem caminho"

Não queiras mais que a gratuita lucidez
do instante sem caminho Não julgues que ele é mais
do que a casual aragem de não ser mais nada
do que o voluptuoso fluir de um puro vazio

Em distraído vagar como uma leve nuvem
torna-te vago também deixa ascender em ti
essa torre ténue que quer a transparência
e a graça flexível de pertencer ao ar

Não queiras conhecer o que há por trás desse fulgor puro
se é que há algo por trás Aceita a sua dádiva gratuita
porque ele é preciosamente nulo
e tão essencial como o ar que se respira

- António Ramos Rosa, As Palavras, Porto, Campo das Letras, 2001,p.32.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

"Às vezes a realidade abre um rasgão"

"Às vezes a realidade abre um rasgão
e nós vemos o clamor da derradeira cal
ou o incêndio das nossas coordenadas
Mas [...] não suportamos essa visão do fim
e procuramos reconstruir o nosso círculo quotidiano

Tudo o que pensamos ou é de mais ou de menos
porque a realidade é insondável e alheia
e se para ela nascemos vivemos sempre à beira
dos abismos que a dissolvem ou entre os espelhos que a deformam"

- António Ramos Rosa, As Palavras, Porto, campo das letras, 2001, p.51.

Um dos textos a comentar no curso livre "O sentimento cósmico da vida. A experiência da totalidade na poesia portuguesa contemporânea", com início a 9 de Outubro, na Associação Agostinho da Silva.