O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


segunda-feira, 31 de março de 2008

Tudo te beija, envolve e abraça. Tudo rejeitas. Queres imaginar-te só quando a cada instante estás na cama com o universo.

Olá, como estás companheira?

Olá, como estás companheira?
Anda, vem-te sentar
Senta-te à minha beira
Temos tanto para falar.

Companheira, então, que me contas?
Que tens tu aprontado?
Temos as malas já prontas?
Ou está tudo desarrumado?

Calma, estou na brincadeira
Espera, não te vás embora
Vá... senta-te à minha beira
Conta-me coisas agora:

"O que queres que te diga?
Que vimos um mundo a dois?
Toma o meu beijo, amiga
Hmm... abres os olhos depois."

Próximas Actividades

Caros Amigos,

De regresso do VI Encontro Agostiniano na Ilha da Graciosa (Açores), e ainda sob a inspiração da antecipação das Festas do Espírito Santo neste lugar, com quase todas as Irmandades e Foliões da ilha reunidos e a coroação das crianças, chamo a atenção para algumas actividades muito próximas: 1 - hoje mesmo, consoante a notícia a seguir, mais uma concentração pela causa tibetana; 2 - no dia 2, o 4ª Encontro Inter-Religioso de Meditação, desta vez na Comunidade Hindu de Lisboa; 3 - o Colóquio inaugural da APER, sobre Religião e Religiões, em 4 e 5 de Abril; 4 - o novo ciclo de cursos livres na Associação Agostinho da Silva, sendo o primeiro o meu curso sobre o V Império (em Camões, Vieira, Pessoa e Agostinho da Silva), no dia 4, pelas 18 h 00 m (para mais detalhes ver a coluna de "Actividades", no lado direito do blogue).

Sejam bem vindos !

Concentração e Vigília frente ao Comité Olímpico de Portugal
Travessa da Memória, 36 – Ajuda, Lisboa

2ªfeira – 31 de Março – 19h00

Protestos, vigílias e cerimónias de oração pelo Tibete terão lugar em todo o mundo, no dia 31 de Março, quando a Tocha Olímpica chegar a Pequim, de modo a focar a atenção no sofrimento do povo Tibetano, na sequência da recente repressão Chinesa.

Tibetanos no exílio e apoiantes do Tibete apelam à retirada das áreas Tibetanas do percurso da Tocha Olímpica, afirmando que celebrar a Tocha Olímpica Chinesa e sua respectiva "Viagem de Harmonia" no Tibete, enquanto o povo Tibetano é esmagado pelas forças militares Chinesas, é uma abominação que deve cessar.

Mais de 150 organizações de apoio ao Tibete apelaram ao Presidente do Comité Olímpico Internacional, mediante carta enviada há duas semanas, solicitando o cancelamento da passagem da Tocha Olímpica por áreas Tibetanas. As organizações enviaram também cartas aos patrocinadores do percurso da Tocha – Coca-Cola, Lenovo e Samsung - apelando à retirada do patrocínio, até o Tibete deixar de constar no percurso da Tocha, e apelará agora aos Comités Olímpicos Nacionais de modo a que apoiem este apelo.


ORGANIZAÇÃO:
Grupo de Apoio ao Tibete - http://grupodeapoioaotibete.blogspot.com/ grupodeapoioaotibete@gmail.com

União Budista Portuguesa –
http://www.uniaobudista.pt/ Tel: 21 363 43 63

APOIO: Amnistia Internacional – Secção Portuguesa

CONTACTO (Media) - Tm: 91 811 30 21

Que é feito do resto da malta?

domingo, 30 de março de 2008

Vaishnava Janato (Narasinh Mehta) - Em memoria de Mahatma Ghandi

Esta era a oracao favorita de Mahatma Ghandi.
Quem sabe se ela nao concentra a essencia da "libertacao" que nos tao ardentemente procuramos?
Aqui esta uma interpretacao magnifica no filme "Water" de Deepa Mehta:
http://www.youtube.com/watch?v=PGSf5SIWi1E 
Vaishnav jan to tene kahiye je         
[One who is a vaishnav]            
PeeD paraayi jaaNe re         
[Knows the pain of others]          
Par-dukhkhe upkaar kare toye         
[Does good to others, esp. to those ones who are in misery]           
Man abhimaan na aaNe re         
[Does not let pride enter his mind]          
Vaishnav...                  
SakaL lok maan sahune vande         
[A Vaishnav, Tolerates and praises the the entire world]          
Nindaa na kare keni re         
[Does not say bad things about anyone]          
Vaach kaachh man nishchaL raakhe         
[Keeps his/her words, actions and thoughts pure]          
Dhan-dhan janani teni re         
[O Vaishnav, your mother is blessed (dhanya-dhanya)]                  
Vaishnav...          
Sam-drishti ne trishna tyaagi         
[A Vaishnav sees everything equally, rejects greed and avarice]           
Par-stree jene maat re         
[Considers some one else's wife/daughter as his mother]         
Jivha thaki asatya na bole         
[The toungue may get tired, but will never speak lies]         
Par-dhan nav jhaalee haath re         [
Does not even touch someone else's property]         
Vaishnav...          
Moh-maaya vyaape nahi jene         
[A Vaishnav does not succumb to worldly attachments]         
DriDh vairaagya jena man maan re         
[Who has devoted himself to stauch detachment to worldly   pleasures]         
Ram naam shoon taaLi laagi         
[Who has been edicted to the elixir coming by the name of Ram]         
SakaL tirath tena tan maan re         
[For whom all the religious sites are in the mind]         
Vaishnav...          
VaN-lobhi ne kapaT-rahit chhe         
[Who has no greed and deciet]         
Kaam-krodh nivaarya re         
[Who has renounced lust of all types and anger]           
BhaNe Narsaiyyo tenun darshan karta         
[The poet Narsi will like to see such a person]          
KuL ekoter taarya re         
[By who's virtue, the entire family gets salvation]         
Vaishnav... 

sábado, 29 de março de 2008

A Fraternidade da Rosa-Cruz

O Encoberto

Que símbolo fecundo
Vem na aurora ansiosa?
Na Cruz morta do Mundo
A Vida, que é a Rosa.

Que símbolo divino
Traz o dia já visto?
Na Cruz, que é o Destino,
A Rosa, que é o Cristo.

Que símbolo final
Mostra o sol já desperto?
Na Cruz morta e fatal
A Rosa do Encoberto.



Convido-vos a lerem, através do link abaixo, o 4ºManifesto da Antiga e Mística Ordem da Rosa-Cruz.
Muitas das suas posições são bastante semelhantes, e algumas até idênticas, ao ideal agostiniano.

http://www.amorc.org.br/manifesto.pdf


«Pouco importam as ideias políticas, as crenças religiosas, as convicções filosóficas de cada um. Os tempos não estão mais para divisão, qualquer que seja sua forma, mas para união; para a união das diferenças, a serviço do bem comum. Nisso, nossa Fraternidade conta em seu quadro com cristãos, judeus, muçulmanos, budistas, hinduístas, animistas e mesmo agnósticos. Reúne também pessoas que pertencem a todas as categorias sociais e representam todas as correntes políticas clássicas. Homens e mulheres nela têm um status de total igualdade e cada membro goza das mesmas prerrogativas. É essa unidade na diversidade que faz a pujança do nosso ideal e da nossa egrégora. Assim é porque a virtude que mais prezamos é a tolerância, isto é, precisamente, o direito à diferença. Isto não faz de nós sábios, pois a sabedoria abrange muitas outras virtudes. Consideramo-nos antes filósofos, ou seja, literalmente, “amantes da sabedoria”.»

sexta-feira, 28 de março de 2008


Deitado aqui neste leito

Deitado aqui neste leito
Para ti estendo a mão
Toca-a bem junto ao teu peito
Ouve a sua canção.

Que te diz minha jóia?
Que estás a imaginar?
Não percas o senso da história
Pois com ela vais-me beijar:

"É uma mão bem vivida
A mão que seguro e vejo
Em mim está bem acolhida
Aceita, amor, o meu beijo."

Ah... como é doce o sabor!
Do beijo que me beijou
Quão longe me leva, amor
Tão leve... não sei onde estou.

Experiências místicas, sujeito e vacuidade

Segundo o que me parece, a descrença absoluta na realidade é na maioria das vezes mais uma crença do que propriamente um verdadeiro conhecimento (gnose). Concordo com a afirmação do Paulo Feitais: se dissermos simplesmente que a realidade é uma ilusão ficamos aprisionados "do lado fora" da gaiola. É uma crença muito aliviadora e libertadora, sem dúvida, mas não deixa de ser uma crença. Quem lê e compreende intelectualmente, por exemplo, o nono capítulo do "Caminho do Bodhisattva" de Shantideva, alcança um grande alívio e libertação, sem dúvida. Mas há uma grande diferença entre uma compreensão conceptual de que a realidade é ilusória e o conhecimento gnósico dessa mesma questão. Se todos vivemos experiências místicas viradas do avesso que havemos de fazer? Alguém sabe virá-las para o lado certo? Se sabe, que nos ensine. O que sei é que enquanto houver um sujeito que "sente" e que pode dizer "eu sinto" e "eu experimento", a experiência é subjectiva, e por mais que eu tenha compreendido os argumentos que me convenceram de que o "eu" e a realidade não existem, eu continuo a experimentar uma forma de subjectividade. A insubstancialidade da realidade começa por ser uma crença; à medida que se vai aprofundando o processo de des-subjectivização, a crença vai-se tornando aos poucos em gnose, o que exige um trabalho de investigação sobre a natureza da mente e da percepção dos fenómenos, inclusive o fenómeno do sentimento. Se depois da compreensão da vacuidade determinados sentimentos deixaram de me fazer sofrer e até acabaram por desaparecer, então deu-se gnose, diluiu-se parte da subjectividade, desligou-se, nalgum lado, a ligação corpo-mente, o que implica questões neuro-químicas, psíquicas e psicológicas (e não há psicologia sem símbolos, e não há símbolos sem hermetismo e misticismo). Mas se eu espetar uma agulha no braço e sentir dor, então essa ligação, nesse ponto, está intacta, há ali um sujeito, portanto estou ao nível da crença quanto à insubstancialidade do real, pois se houvesse gnose não sentiria qualquer dor. E se alguém cortar a mão a um ser iluminado como Buda, o que acontece? A mão cai ou continua presa ao braço como se esse ser fosse um holograma totalmente insensível e insubstancial? Até onde actua o conhecimento da vacuidade sobre aquilo que conhecemos como as leis físicas da realidade?
A ligação corpo-mente é onde reside a subjectividade, é a partir da relação com o corpo que se cria a noção mental de "eu" ou "sujeito". A relação corpo-mente (sentimento e sensibilidade) é simbólica, parece-me difícil que se consiga explicar como se dilui o sujeito psíquico sem o recurso aos símbolos, e aí entramos na estética e no mistério (experiências místicas) da criação: criação da vida pela sexualidade, criação de prazer e beleza pelo erotismo, mas também pela arte (e aqui entramos no Orfismo e na relação Diónisos/corpo/êxtase--Apolo/mente/ascese). Se concebermos a realidade como um poema, como uma obra de arte, tudo é simbólico, a História é simbólica, mesmo as ciências são simbólicas, ou seja, a realidade é simbólica, a realidade é um mito, tudo é Mito (o que acaba por ser uma forma de "nadificação"). Fica por resolver, contudo, a questão ética: se tudo é mito, por que temos que passar por esta existência ilusória? O que nos motiva para a acção? Por que motivo a nossa missão é a de criarmos condições neste planeta (inexistente?) para a instalação de um Quinto Império? (providencialismo?) Não acho que esta existência terrestre seja a única experiência existencial (ilusória ou semi-ilusória ou ilusória só até certo ponto); tal como Giordano Bruno, acho que há muitos outros mundos existenciais, infinitas dimensões existenciais. A vacuidade é só mais uma peça do puzzle, não creio que tudo se fique por aí.

quinta-feira, 27 de março de 2008



"Todas as pessoas têm a sua própria estrada viva para o céu. Até que caminhem nessa direcção, são como bêbados que não sabem dizer qual e o caminho.
Então, quando começam a caminhar nesta estrada e deixam para trás a sua confusão, é com eles a escolha do caminho a tomar - já não estão sujeitos às orientações arbitrárias dos outros."

Mestre Zen Mi-An

"[B]e kind to nerds, chances are you'll end up working for one." (Bill Gates)

E os resultados estão à vista ...

"White & Nerdy"

"Weird Al" Yankovic - White & Nerdy:

http://www.youtube.com/watch?v=-xEzGIuY7kw

Tenho notado uma coisa interessante neste blogue: Um desejo, partilhado por várias pessoas, de transcender a humanidade, os espartilhos da carne, da emoção, do desejo, da falta e do pensamento e de serem só voz, só palavra, só energia. Não terem rosto, não terem nome, não terem idade, não terem nacionalidade, não terem casa, não terem país, não terem laços.

Relacionarem-se apenas através do verbo, abstraindo-se de tudo o que os/as possa identificar com uma forma humana.

Tudo bem, quando já se viveu plenamente tudo o que a condição humana tem para oferecer e se deparou com a sua insubstancialidade.

Tudo mal, quando ainda não se viveu até ao fim o que ainda temos de viver.

Ainda pior quando não é uma escolha, mas sim o resultado de uma imposição. Espero que nenhum de vocês tenha vivido a experiência de ser obrigado a ser apenas palavra, apenas intelecto, apenas abstracção, por o meio que vos rodeia não reconhecer o vosso direito a ser plenamente humano, e por os nossos delírios cerebrais e pseudo-mistico-poéticos alimentarem o ego das pessoas que mais importam para nós, e o nosso ego também, por "procuração".

Porque valorizamos tanto a palavra? O que é que a palavra, seja ela em poesia ou em prosa, tem assim de tão místico ou tão transcendente que não tem o tacto, a visão, a audição? Será a palavra assim tão mais valiosa do que uma carícia? do que uma gargalhada? Do que o contemplar a visão de um belo ser? Do que partilhar uma refeição? Do que alimentar alguém? Enxugar as suas lágrimas? Limpar os seus dejectos? Aturar as suas birras? Segurar os seus cabelos quando vomita na retrete? Curar as suas ressacas?

Porque insistimos tanto em nos projectarmos para uma dimensão o mais abstracta possível? Do que temos medo? Que condicionalismos nos levam a tal?

Vários de vocês são professores e estão conscientes do quanto o sistema de ensino, que ganha corpo na vossa voz - sim, na vossa voz, nas vossas palavras! - e nos vossos gestos contribui para reprimir, para destruir a criatividade dos vossos alunos, para os formatar em peças úteis ao sistema que, como disse o Paulo Feitais, têm um prazo de validade, tornado cada vez mais curto pela governabilidade neo-liberal?

Seremos nós o produto acabado da mesma máquina repressiva que tanto criticamos?

Será a nossa ânsia de ir além da mente, dos conceitos, das palavras, através do uso os próprios instrumentos que tanto vilificamos, a espressão acabada da nossa alienação, da nossa distorção enquanto seres humanos?

Então o descalabro acontece quando essa pantomina se transforma numa forma de vida e acaba por se tornar uma forma de pagarmos as nossas continhas ao fim do mês.

Sim, quando recebemos as nossas bolsinhas de estudo para escrevermos teses escaganifobéticas que mais fazem do que distorcer ainda mais a realidade e só serão lidas por mais meia dúzia de cópias de toscos como nós.

Quando damos as nossas aulinhas, orgulhosos diante do quadro ou do projector e injectamos os nossos alunos com uma dose mortal de tédio que irá destruir toda a energia que eles deveriam estar a consumir no relvado, na praia, na montanha.

Quando publicamos os nossos livrinhos, amontoado de papel que na maioria das vezes pouco mais servirá do que para confirmar o complexo de superioridade que meia dúzia de seres igualmente distorcidos têm em relação ao resto da humanidade.

Ao olhar para os bichos-caretas que se congregam nas universidades, principalmente ao nível de pós-graduações (coitada da muidagem que tem de aturar isto por pensar que é a única maneira de arranjar um emprego decente), dou 100% de razão aos meus colegas de liceu que me achavam um bicho-careta por me embrenhar tanto em política internacional, economia e literatura quando tinha à frente do meu nariz o esplendor do mar, do céu e da sensualidade do viver Algarvio.

Quem no seu juizo perfeito vai deixar de viver tudo isso pelas promessas vãs da "cultura", da "carreira" e do "reconhecimento" proporcionados por uma vida construida sobre os frágeis alicerces da verbosidade? De graus académicos, de convívio com intelectuais e artistas igualmente verbosos, narcisistas e desencarnados, por ver o seu nome impresso em algum lugar, por ter o prazer sádico de ver jovens vidas passar pelo mesmo processo de alienação do corpo, da natureza e da essência da humanidade que nós passamos faz alguns anos ...

E ainda por cima continuando nisso, tendo plena consciência da loucura que isso implica. É loucura mesmo ... Ou um caso extremo de alienação do que realmente importa ...

Se trabalho numa universidade, afogando o meu ser em enxurradas de palavras todos os dias, é por ter plena consciência de que não sei fazer mais nada.

Um dia parti sem saber

Um dia parti sem saber
Que estava então a partir
Foi quando te sorri ao escrever
A vida que urgia florir.

Um dia parti sem saber
Que estava então a guardar
Lembranças para o entardecer
Que nele far-me-iam chorar.

Um dia parti sem saber
Aquilo que não saberei
Se passaste por mim a correr
Se fui eu que parei.

Um dia parti sem saber
Estranho... sinto que não parti
Mas como se estou a morrer?
A morrer de saudade de ti.

O pensamento do homem é falível
mas tu, errante de estrelas
conheces o arcano caminho
pois não sendo ele um só
é o reenchente de todos.

O pensamento do homem é variável
tal estrela cadente de céus infindos
no entanto alteias a lança furtiva
estandarte cantante face ao inimigo
ao enganador de evoluções.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Friendly Feudalism - The Myth of Tibet

Um amigo iconoclasta envio-me este artigo:

http://www.michaelparenti.org/Tibet.html

Gostaria de saber a vossa opinião.

Na mística viagem da vida

Na mística viagem da vida
O farol assinala a lonjura
Que parta e se não sinta perdida
Cumprindo o que sempre perdura.

O caminho é de névoa e de treva
No escuro há-de parar
Que se livre de tudo o que leva
E recorde do farol o brilhar.

O caminho então transmutar-se-á
E verá por breves momentos
Que a chave do que há e não há
É chave que a livra dos tempos.

Na mística viagem da vida
Encontrará por fim o esplendor
Que é derradeira subida
Sem medo, dúvida ou dor.

Dualidade - Experiência mística do avesso



The Kills - Love is a deserter

One eye in the sun, one in the night
Sleep tight, sleepwalk like honey, honey
Oh my, capital I LOVE U
Put it in a letter honey
I could kiss you underwater
I could in the rearview mirror
XO, took my heart and crossed it
Set it down and lost it
Set it down and lost it
Say it again...

Get the guns out, get the guns out
Get the guns out, get the guns out
Get the guns out, get the guns out
Your love is a deserter
Your love is a deserter

One eye in the sun, one eye in the night
Sleep tight, sleepwalk like honey, honey
When you want me, you got me where you want me again
Say it again!
If it's personal, say it again!

Get the guns out, get the guns out
Get the guns out, get the guns out
Get the guns out, get the guns out
Your love is a deserter
Your love is a deserter

Get the guns out, get the guns out
Get the guns out, get the guns out
Get the guns out, get the guns out
Get the guns out

You got one eye as white as a bride
The other eye, as black as the devil
It's alright!
Oh oh, oh oh oh oh oh!
Oh oh, oh oh oh oh oh!

Crossed wires, sparking a little
Start a house fire with us in the middle
It's alright!
Oh oh, oh oh oh oh oh!
Oh oh, oh oh oh oh oh!

Get the guns out, get the guns out
Get the guns out, get the guns out
Get the guns out, get the guns out
Your love is a deserter
Your love is a deserter

Your love is a deserter
Your love is a deserter

Não sei se gostam mas eu ainda não parei de gingar.

Todos vivemos contínuas experiências místicas, porém viradas do avesso: daí a crença absoluta na realidade.

terça-feira, 25 de março de 2008

Pensei em escrever isto como comentário ...

... mas o meu fantasma não parava de dizer para o colocar como post.

Grande texto o da Sibila!

Lembrou-me exactamente aquilo que mais me irrita no "New Age" e noutras correntes espirituais e pseudo-espirituais: A distorção da ideia de "aceitação".

"Aceite, querida, aceite toda a injustiça, toda a dor que você vê à sua volta. Se tentar ajudar quem sofre, só estará prejudicando essa pessoa, que precisa de viver as lições kármicas que tem de retirar do seu sofrimento. Por isso aceite o mundo tal como ele é e pense em você. Deixe de desperdiçar a sua energia em política. Já agora, precisa de um shiatsu? São XX Reais."

Disse-me uma vez uma terapeuta holística que conhecí no Brasil. Sim, o mundo é como é, não temos outro e toda a bondade e todo o horror que vemos no mundo são reflexos da bondade de horror que existe em nós mesmos. Sim, nós somos cúmplices de tudo o que existe. Mas será isso desculpa para passarmos o resto da vida a olhar para o nosso umbigo, a gastar rios de dinheiro a aperfeiçoar o nosso "potencial humano" e a nos banharmos no líquido amniótico do nosso privilégio (sim, pois nós ainda não nascemos)?

Muito pelo contrário. Acho que é razão para sermos o mais activos possíveis, para desincrustar toda a ignorância, miséria e sofrimento que existe em nós e no Outro, pois não há separação, não há dualidade entre nós e o resto da "realidade". Isto mantendo sempre uma lucidêz meditativa para que a nossa acção "regeneradora" não se torne em mais uma armadilha do ego.

Que nos olhemos sempre ao espelho, não para nos fixarmos na imagem que este reflecte, mas para a deconstruirmos.

Para a Sibila, de um fantasma que se recusa a falar com outros fantasmas



Deixei de acreditar na morte no dia em que soube que uma tia muito querida tinha ingerido veneno e estava em agonia no hospital. Tratava-se de uma pessoa que sempre tinha parecido fortíssima, com uma fé inquebrantável. O problema é eu acho que ela nunca se aceitou. Toda a vida acreditou que nós somos filhos do pecado, quando, de facto, o pecado não existe.
Deixou para trás o marido, três filhas, quatro netos, tudo gente que ela amou, trouxe sempre envolta dum afago profundo. Amou, amamentou, amassou pão, deu-se à vida. Mas lá no recanto mais negro da sua alma, o fantasma, o ego, o filho do "pecado", foi-se alimentando de angústia e desespero. E quis provar que a morte é real, que a morte é o culminar do sofrimento.
Deixei de acreditar na doença no dia em que soube que um tio muito querido que tinha o nome que hoje é do meu filho, sofria de um cancro incurável dos pulmões. Quis olhá-lo nos olhos no dia em que lhe contaram a "verdade". Tratava-se dum homem que tivera uma vida tremenda. Começara a trabalhar nas obras com nove anos. Reformara-se como polícia há poucos meses e começava a ter uma vida mais parecida com uma vida como deve ser. Nesse dia nos seus olhos, na intensidade cristalina das suas lágrimas, lá no fundo, para lá do desespero, pude ver a alma de quem ama incondicionalmente.
Na nossa última conversa (a minha primeira conversa sem ser de fantasma para fantasma, mas nessa altura não poderia ter a noção do que representava isso), pelo menos na nossa última conversa nesta vida intermediária, ficámos em silêncio, no meio da rua, ele ia para o hospital e eu fui ao seu encontro para tentar dar-lhe ânimo e ficámos um tempo imenso em silêncio. Como poderia acreditar na doença? Mas nessa altura ainda acreditava na morte e por isso a única coisa que me vinha à cabeça era uma troca: eu vivera uma vida incomparavelmente mais suave que a sua...
Mas cada um é Deus a ser homem. Na altura essa ideia nem me passava pela cabeça. Hoje o budismo dá-me vias para lidar com essa verdade radical, pois, no fundo, o ateísmo é a via transcensora a própria senda do divino.
E sendo cada um a alvorada do Infinito...
Talvez seja uma forma de loucura. E esse apelo do silêncio... Pode parecer paradoxal, no fundo é paradoxal, mas é um apelo ao mesmo tempo sincero, mas, também, certamente, egótico. Mas cada um lida com o seu fantasma como pode. Há dias em que ele toma conta da casa, o que é a fazer é deixá-lo barulhar e saber que no fim de contas nada daquilo é importante. Porque o segredo é amar e não se consegue amar em ponto pequeno. Amar é darmos soltura aos que amamos, deixá-los ser o que são, assim infinitos, perfeitos, sem pecado e ao mesmo tempo com as pequenas coisas que nos irritam mas que fazem parte da sua perfeição (o roer das unhas, ou a mania de fazerem ruídos com os pés...). E nenhum acto do amor é fantasmático. Como toda a gente sabe.
E o OSHO é um nome escrito em folhas de papel. Vende bem nas bombas da gasolina.
E é verdade que os alunos do secundário... Só gostava que os meus alunos quando começarem a acreditar em algo (e geralmente acabam por acreditar que a vida é uma luta em que cada um deve desunhar-se para "subir" mais que os outros) tenham a noção que ao darem crédito a algo, estão a dar-se em penhor, estão a dar o seu tesouro em troca das muitas coisas que lhes prometem. O que eu gostava é que não penhorassem com a morte, ou com a doença. É uma barganha que sai demasiado caro. E também não quero que acreditem em mim, como é óbvio.
E obrigado Sibila por esse texto tão inspirador. Apaixonado. Como deve ser tudo nesta vida intermediária.
:)

Fantasmas? O que os move? A busca da felicidade, ou a sua posse?



“Aceite-se tal como é e será capaz de aceitar tudo o que o rodeia tal como é.” Osho

Palavra perigosa: aceitar. Por que razão não há-de ser usada como uma forma de aprisionamento, de condicionamento? Como um bom cristão, aceito a bofetada e ofereço a outra face. Como um cidadão modelo, aceito a felicidade que a sociedade me oferece, aprendendo a gostar daquilo que sou obrigado a fazer. Aceito, assim, este admirável mundo novo tal como me é imposto. E, no entanto, o Osho parece ter aceitado muito pouco ou nada da sociedade em que vivemos!

O meu fantasma vê-se a si mesmo como empertigado e rebelde. Não gosta de receber ordens. Quando lhe dizem “aceita”, ele responde “vai morrer longe!”. Mas a ti, Paulo Feitais, não irá responder isso, porque tu não falas com fantasmas, nem acreditas na morte. Já lhe disse que o mais sensato seria remeter-se ao silêncio. No entanto, tenho estado a tentar, desde há já algumas horas, apelar-lhe à razão, mas ele é incapaz de se calar! Sabes, ele está muito contente! Foram-lhe dadas boas razões para festejar. Até há pouco tempo, a sua existência tem estado confinada a uma peça da engrenagem, mas foi-lhe permitido, por alguns dias, evadir-se.

Passo, por isso, a citar a confissão deste fantasma resgatado: “Por breves instantes, pouso a marreta com a qual desfaço toda e qualquer réstia de criatividade que ainda possa existir nas turmas do secundário, antes de lhes ser atribuído um rótulo e um prazo de validade.

Aceito esta pausa! Assim como aceito e agradeço a sagrada sociedade destruidora da espontaneidade do espírito. Baixo a cabeça e saboreio esta vida, a única de que me lembro.”

Esta é a parte em que ele, numa alucinação bicuda, se refere às outras peças da organização social: “(…) Posso dizer que tentei, por tudo, cheguei mesmo a apelar às suas boas vontades, a gritar e a implorar complacência, que me libertassem do processo, que me deixassem respirar outro ar. Mas o resultado foi igual ao de milhares de animais electrocutados ou retalhados vivos, por pele e carne… Fui ignorado! Disse-lhes que vocês existiam, que o amor podia existir entre as serpentes e os ratos, os católicos e os budistas. Mas, de tão incrédulos, não esboçaram sequer um sorriso de escárnio.

Libertaram-me por alguns dias, é verdade! Mas terei que voltar. Aceito! Regressarei, grato por ainda precisarem de mim.”

Como vês, trata-se apenas de mais um fantasma acorrentado. Faz-se muito modesto e espirituoso… Mas está cheio de armadilhas, é o que é! Cuidado com ele, apanha-nos de fininho e engole-nos vivos!

Fazer ver, a este fantasma, que ele é uma fraude, não é fácil. Estou constantemente a dizer-lhe “Aceita! Compreende que és uma ilusão, um ego entre tantos outros! Apaga as memórias, nunca chegaste a ser embalado e ninguém te pegou ao colo! Esquece o primeiro beijo! Lembras-te do palpitar do coração, do sangue a correr-te nas veias e da ternura do seu olhar? – Eh! Eh! Era apenas uma piada, nada disso existiu!”

Digo-lhe ainda: “A posse não existe. Despoja-te do sentido e das palavras. Apaga a mente. The cup is full? There is no cup! Tu és a taça e o líquido que dela transborda. A tua existência é apenas uma projecção, um reflexo, do amor e liberdade verdadeiros.” Ele responde-me com muitas questões: “Por que razão amo quem amo? Vais-me dizer que não amo o seu rosto, o seu corpo, o seu perfume? Devo negar os sentidos para chegar às formas? Então, por que razão estou aqui e sinto calor e frio, dor e prazer?”

“Candy or trick?” – pergunta o meu fantasma, quando brinca aos falsos dilemas.

Pede-me, ainda, para vos dizer que aceitem este texto (na saúde e na doença!), com todas as suas incoerências, vislumbrando na parte a plenitude!

Os amigos

Este post é a continuação do poema sobre os amigos, cuja primeira aparição repousa já algures no ventre da Serpente. Será um poema a continuar, a alterar, a trabalhar que, por enquanto, surge sempre sob a forma de esboço:

Os amigos

Os amigos crescem
Juntos
E depois
Partem

Os amigos vêem o mundo
Juntos
E depois
Já nada têm a dizer

Get over yourself

Ontem ouvi uma expressão fantástica num filme americano, dita pelo genial Steve Buscemi - "Get over yourself". Parece que não temos nada semelhante em português.

Desculpa-me ó grande lobo

não te comi

devidamente

a língua


Teus dentes eram

são-me

demasiado suculentos


Apetites de caçador

Octávio Paz ...

"O sol dissolve a dualidade cara e cu, alma e corpo, numa única imagem, deslumbrante e total. Recobramos a antiga unidade e essa unidade não é nem animal nem humana..."

Certamente, um dos compinchas do Manuelinho;-) ...

segunda-feira, 24 de março de 2008

Terra

A terra treme sob os teus pés
verga sob as tuas pegadas.
No entanto o inimigo persegue-te
com quês vindo do nada.

O pensamento do homem é falível
mas tu, errante de estrelas
conheces o arcano caminho
pois não senão ele um só
é o preenchimento de todos.

A terra ruge sob os teus pés
ela sucumbe sob as tuas pegadas.
No entanto fiel ao todo te mantêns
não te esquecendo do nada.

O pensamento do homem é variavél
tal estrela cadente de céus infindos
porém alteias a lança furtiva
estandarte cantante face ao inimigo
ao enganador de evoluções.


A morte não existe. Na vida há duas coisas em que não acredito: na doença e na morte.
Mas a noite escura faz parte da "busca". É o lugar mais propício aos desencontros e, por isso mesmo, à descoberta do que nos estava oculto, porque buscar tem em si ocultação.
E é claro que todas as vidas comportam sofrimento. Dilacerante e, muitas vezes, insuportável.
E ou a filosofia nos agarra pelos cabelos e nos coloca perante a questão decisiva, ou os nossos dias, se nos dedicarmos à filosofia, serão os de espanta-traças que, como é sabido, permitem às bibliotecas poupar uns dinheiros em químicos para exterminar essas criaturas devoradoras de livros (essa é a única coisa de que não gosto nas bibliotecas, uma vez que as traças são seres sencientes).
E que questão é essa?
Eu acho que essa questão pode assumir esta roupagem: "como não assumes a Felicidade?"
Não se trata da minha ou da tua felicidade, mas na Felicidade que há em estarmos aqui e estarmos agora a sermos testemunhas do Universo. E digo "testemunhas" porque ser é, na sua radicação mais essencial, ser-tudo. Não é ser parte, mas assumir o tudo que há em cada coisa. O assumir cada coisa como o tudo.
Ora o problema é que durante toda a vida alimentamos um fantasma doido (que sofre de má doideira e não da luciferina loucura dos santos e dos poetas) cujo único móbil é o medo da morte. Trata-se do Ego que se encara como separado de tudo e procura mil pretextos para nos fazer ver o quão pequenos e frágeis somos e como a vida é uma luta incessante de fantasmas esfomeados (os Egos) em vista do "sucesso".
Enquanto não suicidarmos essa nossa personna vivemos no inferno.
O segredo é amar, como bem sabe Sebastião da Gama.
A morte é "apenas" uma soltura. O abrir da porta das reclusões em que nos movemos na vida intermediária. Talvez o maior dos "segredos" seja o de sabermos se podemos escapar-nos da nossa necessidade de clausura. Conseguir isso em "vida" talvez esteja aberto a todos. Talvez.
E talvez melhor que tudo seja o silêncio. E a solidão que, sendo verdadeira, será estar tudo (todo) em tudo, com tudo.

A arte suprema



"Movimente-se na vida com uma confiança profunda, onde quer que ela o conduza. Não crie objectivos próprios. Se criar objectivos perderá a sua autenticidade. Ter objectivos é ser contra a vida. A vida não tem objectivos. Se você tiver um objectivo, está contra a vida. A vida não se move como um negócio,move-se como a poesia. A vida não se move a partir da inteligência, mas a partir do coração. A vida é um romance. Por isso a confiança é fundamental, e a dúvida em nada nos pode ajudar. A vida não é científica, é irracional. A vida não acredita em Aristóteles ou nos apologistas da lógica, mas acredita no amor, nos poetas, nos místicos. É um mistério que tem que ser vivido, e não uma charada para resolver. Não é um puzzle , nem um problema. O segredo da vida está aberto, você é que está fechado. O segredo da vida é revelado em cada coisa: em cada árvore, em cada raio de sol. É você quem está fechado.
E porquê? Se não aceita a vida que existe em si, como pode aceitar a que está fora de si? Aceite! Comece pelo centro do seu ser. Aceite-se tal como é e será capaz de aceitar tudo o que o rodeia tal como é. A transformação só acontece a partir da aceitação. Quando aprender a aceitar, nunca mais será o mesmo." OSHO, A semente de mostarda, Pergaminho, pp.98-99.

Justificação sem resposta ou impotente

Quase todos se acomodam porque não sabem, ignoram, como hão de se desacomodar.

Um post optimista?

Tudo o que possamos dizer ou escrever não altera em nada a nossa morte.
Tudo em que possamos crer não altera em nada aquilo que somos e a nossa morte.
Tal é a sorte!

Não, não é verdade que morremos e revivemos a cada momento - a morte é um acontecimento único na vida, do qual não podemos fugir. Se devemos viver centrados na morte ou, por outro lado, na vida? Respondo que nem numa nem noutra, mas no mundo fenoménico que, a cada momento, se nos apresenta e, de acordo com Espinoza, considerando a tristeza um mal ou defeito (eu, que outrora disse que o mundo era uma lágrima...), vivendo com alegria e felicidade.

Muitas pessoas perguntam: o que é a felicidade? É algo a curto ou a longo prazo? Não conheço o longo prazo e só conheço a felicidade no momento. Por isso digo, do alto da minha arrogante juventude, que a felicidade é o momento, encontra-se no momento... mas - pergunta o leitor - é momentânea? Tudo é momentâneo, meu caro leitor!

Aproveitemos enquanto podemos!

Ousemos

Estive todos estes dias de Páscoa a pensar em algo inteligente para escrever aqui no blogue. Não me ocorreu nada.

Agora, ouvindo os Ramones, contemplando a mais perfeita liberdade, penso isso mesmo: sê o mais livre que puderes - livre de partidos políticos, de associações, de credos, de religiões.

Não te deixes agarrar em malhas que alguém pensou. Não tenhas medo de pensar (não creio que pensemos por medo) por ti mesmo, pois só isso é pensar. Não tenhas medo de ser livre.

O que é ser livre?

Não apenas escolher livremente, ter esse poder mas, também, ter a sua relação solitária, única, com o Cosmos.

Ousemos ser livres.

Poema

Queres, tu, assassino de instintos
dizer-me da luz.
Queres, tu, pesquisador de nadas
falar-nos da sombra.
Pois então fala, canta
de preferência o abismo
o teu, de ti

Sofres? Muito?
Pois mais ainda
mais até

Já não podes?
E dizes: ouçam.
Por tão pouco, não

Antes, entra na festa
Fá-la

oxímoro

Circular a lembrança.
Sou apenas o mapa
Da cidade
Que não há.

Dolente,
Vago o rumor dos passos nus,
Cais na voragem de não ter
Mar.
Raio de esfera este silêncio,
Várzea ao fim do dia na fortuna da ancoragem.
O fugitivo ao tempo torna.
O infinitivo à sua aurora.

Vou...






Sou um trilho há muito esquecido,
Que a floresta de novo reclamou.
Se a realidade me nega ter sido,
Não existo, sigo, em tudo ora vou...

imagens: Ilia Kondratiev

domingo, 23 de março de 2008

Quase todos se acomodam

Quase todos se acomodam: os que buscam despertar tornam-se religiosos, os visionários devêm artistas, os poetas escritores, os revolucionários políticos, eu crítico e até tu leitor…

Poema

Sempre que pensares em mim
Esteja eu onde estiver
Sinto que sou, existo e atendo
Neste mundo que não compreendo
Vou-te lembrar, se por ora esqueces
Imenso sentimento, quanta energia forneces

Sempre que pensar em ti
Estejas tu onde estiveres
Hás-de pensar se tu quiseres
Que neste mundo tão carente
Amizade se faz com gente
Gente digna, firme e contente.
Pensamos, fazemos, gritamos firmemente
Oh!, que Alegria sentir bem cá dentro
Bato-te à porta, espero, não entro
Abres teus braços, apertas-me forte
Lágrimas, saudades, forte emoção
Pra uns é Amor, pra mim é paixão.

Sempre que pensamos em nós, é diferente
Será que os outros não vêem também
Precisamos de todos de toda a gente
E de força lá do além.

Vistos, conhecidos, amigos, amados
Bem distintos, todos cromados
Valentes e fracos com o mesmo valor
Prestamos contas a Nosso Senhor
Enquanto vivos, soberbos, vingativos
Sentimentos negativos que teimamos conservar
Por vezes esquecemos e cuspimos para o ar

Então meus amigos pra quê olvidar
Tudo se acaba iremos morrer
Não há mais retorno, nem arrependimento
Tudo se acaba, a vida, nesse momento.

Quero pensar em nós que amamos
Esqueço aqueles que não lembramos
Perdoo os outros que perdemos
Então sim, conquistaremos!

João Marques
25 de Janeiro de 2008
(poema enviado por António Cândido Franco; o autor é recluso no Estabelecimento Prisional de Leiria).

as plumas do rio transbordante

Nam-Myoho-Renge-Kyo

«Kossen rufu significa criar uma sociedade de paz. Esse termo foi criado através da base filosófica de Nitiren Daishonin. Para se atingir essa etapa (Kossen Rufu) é necessário que cada ser humano faça sua própria revolução humana (outro termo que significa revolucionar o seu lado interior) para conseguir a felicidade absoluta, com base no Daimoku(Nam-Myoho-Renge-Kyo) e nos estudos sobre o budismo de Nitiren Daishonin e com ações que visem uma sociedade melhor.O termo rufu, de Kossen-rufu, significa “fluir como um rio poderoso” ou “espalhar-se como um enorme tecido”. Isso significa difundir-se ou fluir por toda a humanidade. Kossen-rufu não é o ponto final de um processo, mas sim o próprio processo, o fluxo. Não existe um destino especial, uma conclusão do Kossen-rufu. Podemos falar de forma metafórica sobre o que é o Kossen-rufu, mas na verdade não existe uma forma definitiva.»

(wikipédia)

Ovo da Páscoa

Páscoa

Foi por línguas de fogo
que aprendi a falar.
Que digo que não digo...
o melhor é calar.

O melhor é seguir
de peito aberto aos riscos.
Quem me mandou nascer
na Ilha dos coriscos?

Agrafa-me esse lume
num caderno de nozes
que se estão em poema
são muito mais que as vozes.

O Eterno me intima:
o tempo o templo arromba.
Sou caixa de rufar
o regresso da pomba.

Veni, Creator Spiritus.
Dou a notícia ao povo.
De entre vós será Rei
o que encontrar o ovo.

Natália Correia, "O Espírito é tão real como uma árvore", O Dilúvio e a Pomba

São Rosas, Senhor...


Vincent van Gogh 1853 - 1890


Amendoeira em flor
Saint-Rémy-1890 - Óleo sobre tela
Van Gogh Museum - Amesterdão

Meditando sobre a Páscoa com Nikos Kazantzakis

"Still plunged in his vision, he dictated to me in a broken voice the Franciscan haikai he placed in the saint's mouth: "I said to the almond tree, 'Sister, speak to me of God.' And the almond tree blossomed."

Helen N. Kazantzakis, introdução de Report to Greco

Bjarkan - A Runa da Renovação

(O vento do Norte insiste em soprar cortante no meu pensamento - por favor, acudam-me;-) ... )



Représentant le bouleau (Betel pendulum), la dix-huitième rune s’appelle Berkano ou Birkana et se prononce « B ». La forme de cette rune rappelle la poitrine de la déesse mère Terre, autrefois appelé Nerthus, Perchta ou Frau Percht. Le bouleau est un arbre à tronc blanc, traditionnellement associé à la purification, premier arbre à repeupler les terres arides après la fonte des glaces, à la fin de la dernière période glaciaire. Le bouleau symbolise également la régénération, le printemps et le retour de la chaleur après le froid. Berkano marque le nouveau commencement, souvent dans la sphère féminine, pour laquelle elle représente la naissance. Dans la tradition populaire, les rameaux de bouleau sont utilisés pour confectionner les balais servant à chasser le mauvais sort. Dans de nombreuses régions d’Europe, les arbres de mai sont des bouleaux. Le chiffre de Berkano, le 18, est le double du chiffre sacré, le 9. C’est donc le symbole de l’accomplissement, du renouveau à un niveau supérieur. Berkano marque le point auquel les lois primitives de l’existence ont été définies. La vie peut alors commencer pour de bon.

Divinité : Nerthus

Lettre : B

Symbole : Terre - Mère

Élément : Terre

Arbre : Bouleau

Pierre : Pierre de Lune

Couleur : Vert

Animal : le Sanglier et la Laie

Berkano est la rune mère. C’est elle qui porte en son sein tout les hommes et femmes de ce monde. Elle est terre nourricière. Elle nous parle de naissance et de renaissance profonde de nous-même comme de nos enfants, de nos projets qui prennent enfin vie. Elle est tendre quand cela est utile et dure comme le fer si cela est nécessaire pour notre amélioration.

Valeur divinatoire : Nouveaux débuts, naissance, croissance et mariage. Peut aussi nous parler de stagnation, de divorce.

Valeur spirituelle : La sexualité latente de la rune Berkano indique aussi au chercheur que, par les plaisirs de la chair, le salut peut-être obtenu. L’une des caractéristiques du vieux paganisme est cet emploi de l’énergie sexuelle à des fins magiques et spirituelles.

Valeur physiologique : Berkano est la rune pour les maladies des femmes, les reins, les hanches, le système nerveux central, les glandes crâniennes, moelle des os et fonctions conscientes et inconscientes.

Sources : Runes (Nigel Pennick) Édition Könemann

Runes, exercices pour la revitalisation, la santé et la longévité (Marga Vianu) Guy Trédaniel Éditeur

Runes, pratiques et interprétations (Michael Howard) Édition Albin Michel

sábado, 22 de março de 2008

Three Kinds of Souls, Three Prayers:

1) I am a bow in your hands, Lord. Draw me lest I rot.

2) Do not overdraw me, Lord. I shall break.

3) Overdraw me, Lord, and who cares if I break!

Nikos Kazantzakis, Report to Greco
Aspirar à carícia lunar da lâmina,
à indivisível nudez do vento
que se despenha sobre a pele.

Quebrar os dentes nas margens
de uma página onde se lê
a palavra pedra.
Firmar-me no vazio,
no silêncio escuro da serpente,
nas antepassagens para a noite
das águas espaçadas e do horizonte frio.

Há ainda as mãos:
desviar a luz,
transparecer o mundo.

pássaros com maçanetas de cristal




um pássaro
é uma porta
que dá para as traseiras de mim
para as veredas do sem-fim
onde as viagens pingam gotas de suor
feito de ervas e calor rasteiro
de quando o mundo se entorna
nas tardes repletas de Maio
basta deixá-lo entreaberto
entre o susto de de repente
e o súbito cântico sem destino
para as velas de estar à escuta
me rasgarem espaços de não voltar
e todos os pássaros
todas as nuvens
todos os ventos
tudo o que tem rasguras no nome
explodem de mim
retalhado de agora e de nunca ter sido

Uma Bailarina e um Compositor para Celebrar a Primavera


(12 variações de um pensamento que se desfragmenta da solidez do Inverno)

1. A bailarina cega dança Messiaen ou Messiaen, quando compõe, dança como uma bailarina cega.
2. A bailarina cega deseja ser pássaro e tem braços-asas.
3. As asas da bailarina cega são de um pássaro de Março que ainda não foi encontrado.
4. Os pássaros de Março fogem da cauda do piano. Os pássaros de Março desenham nuvens em forma de violino no azul do céu. O nome dos pássaros de Março não existe. Os pássaros de Março não têm (não deveriam ter) nome em nenhuma taxinomia de nenhum ornitólogo.
5. Os pássaros desenhistas, desenhadores, são pássaros por encontrar, inesperados, apesar das horas de espera de Messiaen e do Paulo Feitais.
6. A bailarina cega é um pássaro e ficou cega de escutar tanta música. Uma vez que aprendeu a escutar prescindiu de ver. A bailarina cega não desespera, espera.
7. Messiaen escuta os pássaros e a bailarina cega. Ela sabe cantar de olhos fechados.
8. A bailarina cega canta uma melodia de pássaro. Há pássaros que imitam o livro escrito pela bailarina cega.
9. O livro da bailarina cega não está escrito com signos, mas com lágrimas.
10. As lágrimas da bailarina cega têm a luz de Lisboa que a Luiza sabe escrever.
11. Nem os pássaros de Messiaen perguntam nem a bailarina cega responde. Tudo o que não pergunta e não responde, toca. Toca-nos.
12. A bailarina cega não tem boca. Ela oculta um bico e os dedos são teclas O seu corpo é um piano, veste-se de caudas e toca no fundo insondável de nós. Não procura o sentido. Perde-o. É por isso que canta na luz.
Ressurreição: Se fosse pássaro escolheria a luz de Lisboa da Luiza para me aproximar dos Homens e se fosse a bailarina cega pediria ao Paulo para recriar o som do canto da mulher pássaro e de asas com violinos no inexistente “oitavo livro dos pássaros”. Será que os pássaros choram?

Nota: São as variações que consegui para agradecer a luz, as flores e as frases com que trouxeram a Primavera a esta página e ao Livro por escrever da minha ressurreição do Inverno. E, também, todos os bons votos de Páscoa por muitos aqui deixados com o som da sua Sagração da Primavera. A todos o meu agradecimento.







sexta-feira, 21 de março de 2008

Nikos Kazantzakis - "Report to Greco"


My "Report to Greco" is not an autobiography. My personal life has some value, extremely relative, for myself and no one else. The sole value I acknowledge in it was its effort to mount from one step to the next and reach the highest point to which its strength and doggedness could bring it: The Summit I arbitrarily name the Cretan Glance.


Therefore, reader, in these pages you will find the red track made by drops of my blood, the track which marks my journey among men, passions, and ideas. Every man worthy of being called a son of man bears his cross and mounts his Golgotha. Many, indeed most, reach the first or second step, collapse paintingly in the middle of the journey, and do not attain the summit of Golgotha, in other words the summit of their duty: to be crucified, ressurected, and to save their souls. Affraid of crucifixion, they grow fainthearted; they do not know that the cross is the only path to ressurrection. There is no other path.


The decisive steps in my ascent were four, and each bears a sacred name: Christ, Buddha, Lenin, Odysseaus. This bloody journey from each of these great souls to the next is what I shall struggle to mark out in this Itinerary, now that the sun has begun to set - the journey of a man with his heart in his mouth, ascending the rough, unaccomodating mountains of his destiny. My entire soul is a cry, and all my work the commentary on that cry.

O Magnum Mysterium (Morten Lauridsen)

http://www.youtube.com/watch?v=qAIYP75PDOA

Lux Aeterna

Primeiro dia de Primavera na Nova Inglaterra, um dia depois de ter regressado da sua matriz.

Neste ano, por uma coincidencia cosmica, o Equinocio coincidiu com o que as Igrejas Cristas convencionaram ser a Paixao de Cristo, o chorar das lagrimas de sangue, a descida aos abismos da alma, "Afasta de mim este calice se assim for a Tua vontade", antes de descer aos abismos da carne "Pai, Pai, porque me abandonaste", "Perdoa-lhes, Pai, pois eles nao sabem o que fazem".

Isto antes de renascer, esfuziante de vida, de fogo Pentecostal e de aparecer em primeiro lugar a Mulher Amada, aquela que todos pensavam nao era digna mas acaba por ser a portadora da Mensagem.

O ceu esta azulissimo e sopra um vento forte, frio, que arrasta consigo o que sobrou do Inverno.

Embora tenha deixado de ser Catolica ha ja algum tempo, por me sentir asfixiar pelos dogmas, proibicoes, culpabilidade imposta e aversao ao pensamento critico tao tipicos do Catolicismo, gosto de celebrar os Misterios Pascais. Da Via Sacra a Vigilia Pascal a missa de Pascoa, todo este tempo esta embebido pelos Misterios milenares que celebram a Renovacao da Vida e o Renascimento da Alma Humana depois do longo jejum do Inverno.

Gosto tambem de ouvir o Requiem de Mozart. Curiosamente, nunca senti que este Requiem fosse uma musica funebre. Pelo contrario, ha nele um sentimento de vitoria sobre a ilusao que e a morte, e uma afirmacao plena, exultante da vida, da vida livre de todas as ilusoes, de todas as definicoes, de todos os conceitos, de todas as formas:

http://www.youtube.com/watch?v=Fhifv-lFfcU

Uma feliz Pascoa para todos voces.

Durufle: Requiem, Op. 9, Agnus Dei

http://www.youtube.com/watch?v=N6ySRRqe1ks

equinócio, Paixão e poesia

leitura de poemas em Évora, Galeria 21, 17h. Vai-se lendo enquanto passa o equinócio. Deambulando pela cidade, intercalando sempre que seja o caso com tudo o que haja de melhor: alguém nos livrou da morte.

R. Kapuscinski

Abandonam-me as forças
a alegria desapareceu sem deixar rasto
minhas mãos vagueiam
não encontram coisas seguras
quisera
que se atirasse um pássaro a voar
que ladrasse um cão
busco provas
de que algo é possível

SANTINHA!

a semana santa
é muito sagrada
(e calada também)
tudo se reúne
à hora marcada

à hora marcada
num beco escondido
filho duma rosa
dum cravo nascido

dum cravo nascido
cá vem a apitar
se a semana é santa
à beira do mar

à beira do mar
coberta com mantas
como deve ser
se a semana é santa

se a semana é santa
então tem auréola
para se iluminarem
metam-se com ela

metei-vos com ela
e santos ficais
e a semana santa
então esposarais

então esposarais
num templo mui santo
já sem as auréolas
já no radamanto

já no radamento
para ser arbitrário
que isto das temáticas
inspira ordinários

quinta-feira, 20 de março de 2008



os pássaros da minha infância
trago-os presos na gaiola furtiva
da língua de gato noctívago
com que abjuro o nome das coisas
que me prendem a esta humanidade
de estar sempre por cima das pedras
quando os caminhos seguram incertezas
nas suas duas pontas
o perigo de não e ser o que rejeito
e quantas vidas calo
na mudez com que entreolho as pessoas
com que me cruzo
resgatadas por dolorosos instantes
à indiferença de não as saber existentes
com a sua completude ignorada e os seus desejos
e as suas vidas ao sabor das ondas
deste oceano que nos traz
pedaços de vésperas naufragadas
nas uterinas exsudações da memória
são pássaros que roubam aos céus
a perdição de voar
e trazem a cada gesto
a cada movimento com que me apresento na vida
a ausência e o frio de me vestir
como um casulo
sem uma crisálida lá dentro

Distâncias

“A atitude com que me aproximo do outro é,
também, a atitude com que me aproximo de mim mesmo”.

Buber

quarta-feira, 19 de março de 2008

O vazio (2)

Penso que o reconhecimento do vazio dos fenómenos pode ser fruto do seguinte pensamento:

os fenómenos são contingentes

e, desse modo,

não existirem é uma possibilidade, tão real como a de existirem.

Por isso,

na visualização de um fenómeno, podemos negá-lo (mentalmente, com a outra possibilidade, a de ele não existir),

e ver o que se não pode ver, a saber, o vazio respeitante a esse fenómeno.

O fenómeno comporta, em si, a sua negação (e esta frase daria pano para mangas).

[edit: mas pergunto - serão os fenómenos realmente vazios ou inexistentes? Ou será que a realidade é plena? O que significa dizer que algo é substancial ou insubstancial, num sentido não lockeano de substância? O que é um sentido não lockeano de substância? Não sei a resposta a estas questões... mas penso, normalmente, que o mundo não é cheio/pleno, tal como apregoado nos textos taoístas - o vaso vazio - e que tudo assenta no vazio, isto é, no Nada... que chegamos a um ponto da nossa investigação em que nos deparamos com um Abismo que é coisa nenhuma e que dá para coisa nenhuma - falamos então do incriado, não só como nonada, mas como realmente Nada, Silêncio, Ausência, Não-Ser -, infinito... e isto caso queiramos manter o realismo e não um idealismo como parece ser o caso da doutrina Advaita Vedanta... uma grande questão é que tecemos e nos prendemos a elaboradas teorias que mais não são do que ilusões relativas a um mundo que é absolutamente fenomenal, como se de um sonho se tratasse - pergunto: haverá um mundo, uma existência, por mais ínfima que seja, para lá dos fenómenos? Ou tudo o que temos são fenómenos gerando fenómenos, sonhos gerando sonhos? Em que creio? Ainda não me decidi, mas creio, aparentemente e sem esforço meditativo, no Abismo... ligando este post ao anterior, qual será a melhor religião para mim? Eu, que tanto critiquei os monges, que até já pensei tornar-me num... Penso que tenho e temos de ter mais confiança nas nossas intuições, em busca de uma ontologia verdadeira... Paz.]

Religião - um remédio para a mente?

Mais uma passagem do livro "Conselhos espirituais do Dalai Lama", da editora Verus, p.14. Agora no que refere ao papel da religião na cultura humana:

"As religiões são um remédio, no que diz respeito à relevância de seu papel na cura do sofrimento humano. Na prática da medicina, o que realmente importa não é o preço de determinado remédio, se é muito caro ou não, mas sim que ele cure a doença do paciente. De modo semelhante, há uma variedade de religiões com suas diferentes filosofias e tradições. O objetivo ou propósito de cada uma é curar as dores e a infelicidade da mente humana. Não é uma questão de indicar qual das religiões é superior. A questão é saber qual delas poderá curar com mais eficácia uma determinada pessoa."

petição internacional p/ Tibete


Esta é uma petição internacional pedindo ao governo chinês para respeitar os direitos humanos no Tibete e que procure dialogar com o Dalai Lama.Gostariamos que fosse assinada em todo o mundo pelo menos por 1 milhão de pessoas.Muito obrigado pela sua ajuda - basta clikar no link:
http://www.avaaz.org/en/tibet_end_the_violence/98.php/?cl_tf_sign=1




O bom de assinar uma petição é que tentamos mudar o mundo que nos rodeia.

Sileno Dançante

Estátua Ébria

Mesmo quando ousa falar à multidão é com a alma que dança, o Sileno.
Sileno é o homem desterrado, ritmado pela profunda melodia do silêncio...Sileno silente que escuta o Nada...abre os braços para que ele se derrame como resposta à pergunta que não fazemos.
Sileno poeta, respondendo à pergunta que não formulamos…agora que partes, deixa que alguns te digam, Sileno:
há também os que dançam, como essa outra estátua que cobre o rosto e sozinha se dirige para o cais da partida, na Hora Absurda, e só não parte porque ainda escuta estes versos de uma tragédia que o não foi por lhe faltar a música e o coro…
"O teu silêncio é uma nau com todas as velas pandas...
O teu silêncio recolhe-o [ao seu coração partido] e guarda-o, a um canto...
Ah, e o teu silêncio é um perfil de píncaro ao sol!
E o teu silêncio é uma cegueira minha..."

A cegueira com que contempla, a bailarina do Nada, as paisagens que não existem senão no interior das pálpebras fechadas. As paisagens da alma. Mas também ela chegará dançando e muda. A bailarina de rosto encoberto na vergonha e no medo.

terça-feira, 18 de março de 2008

O vazio

Aqui vai um texto do livro "Conselhos espirituais do Dalai Lama", da editora Verus, pp.54-6, na minha - e porventura nossa - tentativa de melhor perceber o conceito de Vazio, acariciado não só pelo Budismo mas penso que também pelo Taoísmo ou mesmo pelo Hinduísmo, se aplicado aos fenómenos:

"Tentarei explicar a noção budista de sabedoria e seu tipo supremo: a concepção do vazio.
Entre os vários tipos, há a sabedoria de conhecer a variedade dos fenômenos e a de conhecer o modo de ser dos fenômenos. Entre essas duas sabedorias, a segunda - a sabedoria de conhecer o modo de ser ou a natureza final dos fenômenos - é mais importante. Essa é a sabedoria que compreende o vazio.
O que deve ser entendido pelo termo vazio? Há muitas maneiras diferentes de explicar o significado da palavra. Em certo sentido, significa compreender que a pessoa não é permanente, unitária e auto-suficiente. No budismo, todas as escolas concordam com esse tipo de compreensão do vazio. Então, em nível mais sutil, trata-se do vazio da auto-suficiência de uma pessoa, ou seja, a pessoa tem uma natureza, e a mente e o corpo têm naturezas outras além daquela da pessoa. É como um senhor e dois súditos; isto é, em sua natureza, o senhor (pessoa) é distinto dos súditos (mente e corpo). O vazio significa que não existe o estado de pessoa (senhor) separado da mente e do corpo (súditos); que esse tipo de estado é inexistente, ou vazio. Mas há também outro nível de noção errônea quanto à natureza de uma pessoa, no qual vemos a pessoa e a mente e o corpo como sendo da mesma natureza essencial, mas ainda concebemos a pessoa como o chefe, e a mente e o corpo como subordinados que recebem ordens.
Na Escola da Mente Única e na Escola do Caminho do Meio do budismo, também se fala sobre a noção errônea de um 'eu-dos-fenômenos' e sobre uma ausência (ou vazio) de um 'eu-dos-fenômenos'. Nesse sentido, a Escola da Mente Única fala de dois tipos de noções errôneas básicas. Uma é a de que sujeito e objeto são diferentes entidades. A outra noção errônea é a de que os fenômenos existem por meio de seu caráter próprio como referentes de nossas palavras e de nossos pensamentos conceituais sobre eles. Portanto, a Escola da mente Única ensina que há um vazio desses dois tipos de status.
Na Escola do Caminho do Meio, fala-se sobre a noção errônea de que os fenômenos existem de fato ou essencialmente. Como isso é considerado algo que se deve negar, fala-se também, nessa escola, de um vazio da verdadeira existência dos fenômenos. Dentro da Escola do Caminho do Meio, são feitas mais distinções. Uma tradição, a Escola da Autonomia, sustenta que os fenômenos que aparecem para uma consciência não imperfeita - uma consciência que não tem nenhum tipo superficial de erro - de fato existem convencionalmente. Mas então o que eles consideram como verdadeira existência quando dizem que os fenômenos são vazios de verdadeira existência? Para essa tradição, o falso status é que os fenômenos não são firmados à força de se tornarem aparentes para uma consciência não imperfeita, mas são estabelecidos por meio de seu modo exclusivo de ser. Esse status é a verdadeira existência que está sendo negada ou declarada vazia.
Na outra Escola do Caminho do Meio, chamada Escola da Consequência, o pensamento final de Nagarjuna é descrito por Buddhapalita, Chandrakirti e Shantideva. Nesse sistema final, a maneira como os fenômenos aparecem para a consciência não imperfeita - se é que eles existem - é o que deve ser negado no vazio. Na verdade, os fenômenos não existem daquela maneira; existem apenas nominalmente. Assim, o vazio é a ausência desse status exagerado dos fenômenos - como se existissem por conta própria. Portanto, o vazio de tal existência inerente aos fenômenos é a mais sutil não-essencialidade dos fenômenos. E, por fim, esse é o fato percebido pela sabedoria."

Mensagem privada a uma Camélia

E eu digo: “abraça-me.” E os teus braços fazem-se.
E eu digo: “abrasa-me”. E tu fazes-te em braços.








É neste momento que a camélia, escondida, se ruboriza e a página tinge-se
sem perfume.














Contributos para uma Botânica Feminista:
Sei que tu tens um gineceu. Eu também tenho um androceu. Se fossemos coerentes, nem sequer falávamos. (L)íamos.



Leio-te em braile, cega de tanto te esperar.




Parafraseando as Especialistas:
Amo-te com as pontas dos dedos.


apud Tratado de Botânica, Quasi, 2007

Contempla o Nada que está para lá de todas as coisas. Escuta o Silêncio que está para lá de todos os fenómenos. Aí reside a fresca Liberdade.

Uma brisa primaveril do Norte

Por amor de Odin e Freya, dem uma vista de olhos nesta obra-prima:

http://www.wardruna.com/home/index.html

Ando a ver se convenco o artista a participar neste blogue e a escrever um artigo para a Nova Aguia.

Espero que gostem, ja;)?

"[E]sta vida sao dois dias e um e para acordar das historias de encantar (...)" (Pedro Abrunhosa)

Dia 19, Vigília - Boicote à compra de produtos chineses !

Caros Amigos e Concidadãos,

Perante a gravíssima situação de opressão, violência e violação dos direitos humanos no Tibete e na própria China pelo governo chinês, e perante a passividade real dos governos mundiais, para os quais só contam as questões económicas, tem de ser a comunidade civil a tomar medidas efectivas que obriguem o governo chinês a recuar.
Exortamos assim a que se inicie e divulgue um boicote sistemático à compra de produtos chineses em Portugal e em todas as partes do mundo. Deixemos de ser cúmplices com a construção de uma grande potência económica à custa da opressão e exploração do seu próprio povo, do genocídio do povo tibetano e do apoio a regimes ditatoriais como o da antiga Birmânia !

Passem, divulguem e pratiquem !

Amanhã, 4ª feira, dia 19, 19.00, Vigília em frente à Embaixada da República Popular da China (Rua de São Caetano à Lapa, Lisboa).

Não faltes ! Traz uma vela e um Amigo !

Divulguem !

Subscreve a petição on line:
http://www.PetitionOnline.com/Tibete08/petition.html


ORGANIZAÇÃO:

Grupo de Apoio ao Tibete http://grupodeapoioaotibete.blogspot.com/
União Budista Portuguesa Tel: 21 363 43 63 ( www.uniaobudista.pt)


CONTACTO (Media):

Tm: 91 811 30 21

Que são os nossos corpos senão muralhas construídas por milénios de medo, que uma só carícia certeira pode desmoronar ?

segunda-feira, 17 de março de 2008

improvisaçao sobre o bem e o mal

abelha do bem me traga o mal
mel doce com carne de sol
o bem não tem gosto, falta o sal
o mal é o ultimo arrebol

no céu, ai tem tanta bondade
na terra, não sinto nenhuma verdade
quem ama as nuvens, sente o bem
minhoca na terra a gente tem

tem tudo de tudo no mundo fatal
a mente é nu e matinal
cola o bem na cabeça do mal
quem gosta serpente-coral

quem ama veneno nas veias
quem ama as grande sereias
a odisseia é minha e tua
gosto o dia e gosto a lua

Tao?

Assim, o meu primeiro post pós-ressurreição é um poema de Daio Kokushi, que encontro na obra "Textos budistas e zen-budistas", da editora Cultrix. O poema faz-me lembrar um pouco o espírito taoísta que encontro no "Tao Te King". Aqui vai:

"Há uma realidade mesmo anterior ao Céu e à Terra.
Evidentemente, ela não tem forma, muito menos um nome;
Os olhos falham em enxergá-la,
Ela não tem voz que os ouvidos possam captar.
Chamá-la Buda ou Mente viola sua natureza,
Pois ela então se torna uma ilusória flor no espaço;
Ela não é mente, nem Buda;
Absolutamente tranquila e ainda brilhando de misteriosa maneira,
Ela só se deixa perceber por um olhar puro.
Ela é o Darma completamente além da forma e do som.
Ela é o Caminho que nada tem a ver com palavras.
Querendo atrair o cego,
O Buda divertidamente deixou palavras
Escaparem de sua boca dourada;
Céus e terra então se emaranharam em ramos de roseira brava.
Ó meus bons e respeitáveis amigos aqui reunidos!
Se desejardes ouvir a estrondosa voz do Darma,
Esgotai vossas palavras, esvaziai vossos pensamentos,
Só então podereis reconhecer essa Essência Una,
Pois assim diz o irmão Hui: - 'A Lei de Buda,
Não é para ser abandonada aos meros pareceres humanos.'"

Ressurreição

Caros colegas de blogue e leitores do mesmo, os últimos tempos não foram fáceis e isso tornou-se notório na minha participação neste blogue.

Agora já está tudo melhor, tal é a efemeridade das crises e das não-crises.

É verdade que disse adeus, mas a vontade de continuar neste espaço é maior.

Assim, com a vossa permissão, agora ressuscito e aqui continuarei, embora de forma mais ponderada e diferente - mais calma.

Espero que a minha contribuição seja interessante.

Um bem haja para todos.

Pensar em ti diminui-te. Pensar nos outros engrandece-te. Pensar em todos os seres dá-te a dimensão do universo: infinito, livre de si e de pensar.

domingo, 16 de março de 2008

Oh hora terrivel e grandiosa, tao prenhe de possibilidades. Tenhamos nos a forca de sermos inteiros quando tudo cai.

Manchester, Inglaterra

O vento das fabricas mortas torna presente na alma o que parece ausente aos olhos da carne:

Os urros de dor de todas as almas castradas pela razao predadora que governa o mundo.

Velha Albion, gasta pela tua corrida sem fim na Roda da Fortuna ... Que julgavas ser um caminho recto que te levaria ao Santo Graal, mas acabou aprisionando-te num circulo que se estreita cada vez mais na tua garganta ...

Tu que tantas vezes olhas para nos com desdem, levanta os teus olhos cansados: Nao estaremos a espera do mesmo Encoberto?

Nao seria D. Sebastiao o teu velho Artur rejuvenescido pelas brisas do sul e o amor das Tagides?

Nao serao as chuvas do teu ceu as lagrimas de um coracao que se calou a si mesmo para sobreviver a ilusao do real?

Não à Violência, Sim à Paz

O Convento Sonho - Setúbal manifesta profunda consternação pela violência em Timor e a de que tem sido vítima o Povo Tibetano sob a crueldade do governo chinês.
Repudiamos os actos opressivos e violentos de todos os governos que visam estrangular aquilo que é mais precioso no ser humano, a vida, a liberdade de ser, a identidade cultural de um Povo.
Senhores tiranos deixem em paz quem sempre contribuiu para a harmonia universal! Aprendamos a lição do Tibete, escutemos a voz dos oprimidos e dos verdadeiros Mestres!
Reconhecemos a pertinência e urgência das iniciativas empreendidas pelo M.I.L. no sentido do restabelecimento da Paz.
Quem com ferros mata com ferros morre, assim diz o provérbio. Que a revolta não seja violenta, mas que a História se encarregue de devolver a Paz.
“O reino que virá é o reino daqueles que foram crucificados em todas as épocas, por todas as políticas e por todas as ideologias, apenas porque acima de tudo amavam a liberdade e a consideravam, não ao medo, às restrições e à força, como o grande motor do mundo”

Agostinho da Silva, Textos Pedagógicos II, Educação de Portugal,
Âncora Editora, p.93

free tibete


http://www.myspace.com/freetibet

o Dalai Lama está neste momento a fazer uma declaração na India em directo na CNN
onde afirma que se deve investigar toda a verdade sobre o que se passa em Lhassa.

A luz das suas pernas entrava por todas as janelas que batiam. Eu sorria desfeito. Era um álcool contínuo. Uma dança sem regras.

sábado, 15 de março de 2008

Há vida antes da morte ?

A unidade na multiplicidade



Eu aprendi o que aprendi só depois de que os meus mestres me libertaram do hábito de apegar-me ao que eu considerava mestres e ensinamentos. Às vezes não tinha nada para fazer durante longos períodos. Outras vezes devia estudar coisas que não podia relacionar com aspirações superiores, por muito que tentasse.

(Zikiria ibn el-Yusufi)

ONTEM POR TIMOR, HOJE PELO TIBETE ! - 4ª, dia 19, 18.30 - Concentração e Vigília frente à Embaixada da China

Concentração e Vigília em frente à Embaixada da República Popular da China, 4ª feira, 19 de Março, a partir das 18.30 (R. São Caetano, 2, Lisboa, à Lapa)

Perante os graves acontecimentos que ocorrem em Lhasa e noutros pontos do Tibete, em que já perderam a vida mais de 100 pessoas, só possíveis devido a quase 60 anos de brutal ocupação, opressão e violação dos direitos humanos por parte do governo chinês, convocamos todos para uma concentração e vigília de solidariedade com o povo tibetano, a favor do fim da repressão e da violência e do respeito pelos direitos humanos no Tibete.

Apelamos a todos os órgãos de comunicação social que nos ajudem a divulgar esta iniciativa e a todas as organizações cívicas e humanitárias que se juntem a nós.

Quando os governos, as Nações Unidas e os poderosos deste mundo permanecem indiferentes, desprezando as causas humanitárias em prol dos interesses económicos, cabe aos cidadãos indignarem-se e solidarizarem-se com os seres humanos como nós que estão a ser violentados e oprimidos. Exijamos do nosso governo que tome uma posição à altura das nossas relações históricas com o povo tibetano.

Recordamos que está on line uma Petição para que a Assembleia da República aprove, de acordo com os princípios fundamentais consagrados na Constituição da República Portuguesa, uma moção de censura à sistemática violação dos Direitos Humanos e das Liberdades Política e Religiosa no Tibete, por parte do Governo Chinês.

Esta petição já excedeu numa semana as 1600 subscrições e, com a ajuda de todos, chegará às 4000, o que tornará obrigatória a sua discussão na Assembleia da República.
http://www.PetitionOnline.com/Tibete08/petition.html
Não faltes ! Traz uma vela e um Amigo ! Ontem por Timor, Hoje pelo Tibete !

ORGANIZAÇÃO:

Grupo de Apoio ao Tibete http://grupodeapoioaotibete.blogspot.com/União Budista Portuguesa Tel: 21 363 43 63 (www.uniaobudista.pt)

CONTACTO (Media):

Tm: 91 811 30 21

A causa da derrota não se encontra no obstáculo ou no rigor das circunstâncias; está no retrocesso na determinação e na desistência da própria pessoa.

Se falasse em dificuldades, tudo realmente era difícil.

Se falasse em impossibilidades, tudo realmente era impossível.

Quando o ser humano regride em sua decisão os problemas que se erguem em sua frente acabam parecendo maiores e confundem-no como uma realidade imutável.

A derrota encontra-se exatamente nisso.

(Daisaku Ikeda)

Para passar um dia ideal ajuda muito...

Ter dormido muito bem ou muito mal
Ter 28 anos, 2 meses ou morrido durante a noite
Saber ler
Ter esquecido tudo
Poder desobedecer
Não estar deprimido
Ninguém saber de nada
Ninguém contar connosco
Poder contar com toda a gente
Poder ficar acordado até tarde
Tudo ter sido adiado
Encontrar as chaves do carro
Não ser Sexta Feira Santa
Ter tudo o que se quer e ser muito
Pensar que tudo é uma questão de tempo
Ser perdoado
Acreditar que tudo já está decidido por nós
Ainda ser cedo para tudo
Não ter nada a ver com isso
Achar graça àquilo de que não se gosta
Ser a pessoa que mais gosta de uma pessoa
Ter a alegria de não perceber porque é que gostam de nós
Não ser apanhado
Não saber a verdade e não dar por isso
Ter uma saudade diferente todos os dias e ser sempre a mesma
Ser feliz mas estar triste
Enfim
A partir daqui cada um que se amanhe

(MEC)

Você

Coisa mais bonita é você, assim
justinho você, eu juro
eu não sei porque você

Você é mais bonita que a flor
quem dera
a Primavera da flor tivesse
todo esse aroma de beleza que é o amor
perfumando a natureza
numa forma de mulher

Porque tão linda assim não existe a flor
nem mesmo a cor, não existe
e o Amor?
Nem mesmo o Amor existe.

Caetano Veloso

P.S.: O título é da minha responsabilidade.

Que eu viva a graça de amar-te não apesar dos teus defeitos, mas por causa deles. Pois os teus limites iluminam a face do Absoluto.

PS - A minha querida Avó teve uma recuperação milagrosa:-)! Já anda, faz comida e voltou à vida de todos os dias, embora com algumas precauções resultantes da idade. Se tudo correr bem, ainda teremos entre nós uma das minhas vozes favoritas do Amor e da Sabedoria este Verão e, se a Providência quizer, este Natal e no próximo ano!

Muito obrigada a todos vocês que se preocuparam e me deram tanto apoio neste momento tão difícil.

Nau do Amor

Para
Agostinho da Silva
e Paulo Borges


Por mares e sonhos
navega Nau do Amor,
manhã em céu de luz
vem apagar a dor.

Saudade num porto
lembrando sonho antigo,
velas rotas contra tempo
em busca de um céu perdido.

Tempo, tempo de amar
Sarando feridas do mundo
vai o sonho a flutuar
neste sentir profundo.

Por mares e sonhos
navega Nau do Amor
esperando a bela Ilha
onde germina a flor.

Saudade num porto
lembrando sonho antigo,
velas soltas no vento
em busca de novo abrigo.

Olhos postos no horizonte
escutando a voz do mar
vai ao leme a Esperança
de um dia Além chegar.

(Letra e Música: Maurícia da Conceição)

Fado
Pudesse a Nau salvar os navegantes no mar do Espírito
em todos os continentes espalhasse o Amor...
Que a tirania se apague!
“Pelo Sonho é que vamos”…

Transcendência e saudade

"Se fosse possível alguém situar-se fora do mundo, este seria para ele tão invisível como um ponto inextenso" - Nicolau de Cusa (1401-1464), De ludo globi.

Não creio que tal seja possível, mas antes que é efectivo (para não dizer "real"). Com esta precisão: "algo" em cada um de nós transcende "nós" e "mundo", "dentro" e "fora". É isso que, sem se poder ver como isto ou aquilo, permite que vejamos "nós" e "mundo" ou, conforme a perspectiva, nada vejamos. O sentimento disso, isso sentido, é a saudade: entranha estranha.

sexta-feira, 14 de março de 2008

Antonio Ramos Rosa

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação
Não posso adiar o coração.
Tristeza

Vem ao meu lado tristeza plena
o bem que tenho não posso ter
vem e dá à minha alma serena
o teu veneno que quero beber

a tua aguá doce e escura
do teu saber tão grande e mudo
ai me abraça como este mundo
que é uma gota azur e pura

me abraça e dar-me lembrança
enquanto a alegria faz esqueçer
contigo a minha alma avança

além do que ninguém pode ver
contigo mergulho na esperança
lagrima amarga de boa fé

Está tudo muito quieto hoje ... Porque será?

quinta-feira, 13 de março de 2008

Adeus

Este é o meu último post na Serpente, que espero que se mantenha profíqua por muitos e longos anos.

De qualquer dos modos, estava já a ficar muito apegado a ela e, deste modo, desapego-me.

Ressuscitarei noutro lado qualquer.

Uma palavra de agradecimento a Paulo Borges, pela oportunidade de participar num blogue colectivo e à Ana Margarida Esteves por ter sido sempre tão querida comigo.

Um bem haja para todos e, citando Eddie Vedder no final de um concerto em Lisboa, "See you all in a better world!".

Paz.

em Maio, será! Lisboa!



@GaleriaMatosFerreira, Lisboa
@QuintadosLobos, Sintra

Lisboa por uma janela sem fim

Por uma janela,
um canto, um pedaço de Lisboa,
se mostra.

A varanda do São Carlos, as escadinhas ao fundo
O sol que me atravessa e me chama a levantar o rosto,
e a olhar os telhados, e as sombras,
as árvores, as cores, destas folhas que leio
e os carros que passam, e as pessoas que descem as escadas…

Ai. O céu, este céu,
e esta brisa. É Primavera!

Passa um eléctrico…

Respiro fundo.
Não há momento em que Lisboa vibre
que não vibre também Pessoa.
É uma Lisboa revisitada
em cada contemplação e pausa.
Os pássaros a comporem voos...

E mais um eléctrico que passa.

Tudo isto se passa sem o som do que vejo.
Apenas no silêncio do olhar
em que escuto Lisboa lá fora a bater aqui dentro.

Há um livro de Enrique Vila-Matas que eu nunca folheei,
a primeira vez que me apanhou numa livraria foi para lhe pegar de pronto e oferecê-lo. Paris nunca se acaba. Não sei se o lerei alguma vez. O título basta-me.

Acontece-me bastar-me muito pouco dos livros. Por exemplo, com Moby Dick de Hermann Melville. Há dez anos li o primeiro capítulo em inglês. Call me Ismael... Esta revelação na primeira pessoa foi maravilhosa, não sei dizer, mas ía desmaiando. O tom… o tom… há ai um tom que me encantou. Para além de outras coisas, nomeadamente, gostei muito da correspondência que faz da água com a meditação. Cada vez que peguei no livro para continuar a leitura, lia o primeiro capítulo. Fiz mais umas poucas tentativas na altura, e era sempre o primeiro capítulo. Foi um magnetismo inultrapassável. E nunca lerei aquele romance
.

Lisboa nunca se acaba.
Só acaba o que começa. É um facto.
E mais um eléctrico...

Sensibilidade e bom senso

Pode parecer um pouco indecoroso dizer, num blogue público e, ainda para mais, comunitário, que tive uma crise psicótica. Mas o que lá vai lá vai e digo-o como se dissesse que tive uma febre alta porquanto me expus continuamente a um frio desmesurado.

Não penso que todas as ocorrências de doenças mentais nos tornem mais fracos, ou aptos para tê-las mas, antes, por vezes mais fortes, mais conhecedores do labirinto da mente, e menos ingénuos - o que não deixa de ser curioso, porque é com uma certa dose de ingenuidade que afirmo já ter tido tal doença.

Eu sou daquelas pessoas que pensam que os problemas que surgem na vida, embora sejam maus, nos tornam mais fortes e mais aptos a lidar com o futuro que se nos aparece como presente, inesperado, a qualquer momento.

Paz para todos.

Aerosmith - Dream On [Live]

Quero - não é uma ordem! - que apreciem esta música e este vídeo em todo o seu potencial. Quando tive uma crise psicótica, sou sincero, foi esta música que me salvou. Abriu-me os olhos e fez-me andar em frente. É um grande tema dos enormes Aerosmith, uma das maiores bandas de rock de sempre. Hail! Hail!

Um apelo

Acima de tudo, para além dos cumprimentos afectuosos que enviei, convido todos aqueles que lêem e comentam esta sangha para que se tornem participantes activos da mesma, sejam bons, maus, ou banais comentadores. Creio que podemos criar uma excelente sangha virtual, todos juntos!

Acima de tudo, para lá de todas as teorias e "teias conceptuais" (como uma comentadora lhes chamou), desejo que todos vivamos em paz e harmonia, uns com os outros, pelo menos, e que criemos, aqui, algo verdadeiramente bom, que nos apegue de orgulho, por fazermos, com as nossas palavras, o bem (o que é o bem?).

Muito mais, infinitamente, haveria para ser dito mas, por ora, penso que fica o essencial. Participem! Sejamos Um! Paz.

Identidade pessoal e Eterno Retorno

Sou um aglomerado de partes - pessoas? - dispersas pelo espaço e pelo tempo.

Amo-as - profundamente! (não se trata de apego ao eu, porque são outras... É amor puro... apego ao sentimento?)

Sinto-me bem com isso.

Ainda hoje sou aquela criança que brincava na praia deserta com os pais.

Eterno retorno? Tudo está sempre a acontecer. Não neste espaço, não neste tempo, mas noutros, passados ou futuros.

Assim creio, e não apenas na existência do presente, disto, nu e cru, como o vemos.

Abraços

Tenho de enviar um abraço especial ao Paulo Borges, de quem fui aluno intrépido, sempre com questões parvas, por permitir toda esta Folia e, também, ao grande Bhixma, que me tem acompanhado, com bom senso e ternura, ao longo da minha viagem blogosférica. Um grande abraço aos dois! O caminho é sempre em frente! Olha para trás: aí está o teu passado! Vamos embora com isto! Indizibilidades para ambos!

SIMgularidades

Faltou-me dizer algo no post anterior. Tenho de dizê-lo. A Serpente é constituída por inúmeras SIMgularidades, como enunciou a serpentina - um eflúvio da Serpente?, sem desprimor... com Amor (e não a conheço, mas apenas o que escreveu) - Isabel Santiago, na qual as mesmas são respeitadas, deixando-as a Serpente que se vivifiquem no seu SIMgular fluir, (para) além dos comentários positivos, negativos ou, simplesmente, banais a cada post. Gosto de estar aqui e é uma honra e, sobretudo, um prazer aqui estar. Indizibilidades para todos!

Muse - Sing For Absolution

Quero, com este post, agradecer a todos os que comentaram o post sobre o meu despedimento e que demonstraram, assim, que a Serpente é uma sangha virtual unida mas, mais que unida, compassiva. E é disso - compassividade - que são feitas as boas pessoas. Gostaria de ser tão compassivo quanto vós, mas sou, tantas vezes, demasiado comodista.... Muita paz e amor para todos! Felicidade! Concretização! Vida!

Sobre o apego e a fruição da realidade

Muito neste blogue se tem falado do apego.

Supostamente é uma coisa má.

Pergunta-se: como viver sem apego?

Respondo que não sei mas que, para que vivamos desapegados, teremos de viver desapegados da ideia do desapego, caso contrário estaremos apegados a ela e perguntaremos, a cada passo que dermos: estarei apegado?

A solução não é viver com a ideia do desapego na cabeça mas, penso, viver sem ideia alguma pré-concebida na cabeça.

Fruir o tal sabor, que é saber, da realidade que não é "realidade" mas algo indizível.

O ramo dourado do irreparável

O Diagnóstico.
Desalento e tristura. Desalento e tristura são só dois dos sentimentos possíveis dos que se sentem afectados pelo Irreparável.

O Irreparável

“O Irreparável é o facto das coisas serem como são, deste ou daquele modo, entregues sem remédio à sua maneira de ser. Irreparáveis são os estados de coisas, sejam elas como forem: tristes ou alegres, cruéis ou felizes. Como és, como é o mundo – é isto o Irreparável.
(…)
Que o mundo seja assim como é – eis a raiz de toda a alegria e de toda a dor puras. Uma dor ou uma alegria por o mundo não ser como parecia ou como queríamos que fosse são impuras e provisórias. Mas o grau extremo da sua pureza, no assim seja, dito ao mundo quando desapareceu toda a legítima causa de dúvida ou de esperança, dor e alegria não têm por objecto qualidades negativas ou positivas, mas o puro ser-assim, sem nenhum atributo.
(…)
O mundo do feliz e do infeliz, o mundo do bom e do malvado contêm os mesmos estados de coisas, são, quanto ao seu ser-assim, perfeitamente idênticos. O justo não vive num outro mundo. O eleito e o condenado têm os mesmos membros. (…) O que muda não são as coisas, mas os seus limites. É como se sobre elas estivesse agora suspensa qualquer coisa como uma auréola, uma glória.” Agamben, A Comunidade que Vem, trad. António Guerreiro, pp. 71 a 73

O Assim
O assim seja é a aceitação de tudo como acontece, nos acontece, a aceitação do que somos e como somos, do que são os outros e como são os outros. Esta aceitação sem limites é que pode mudar os nossos limites. E, se mudam os nossos, mudam os dos outros. Porque o ser assim e não de outro modo é que deixa ser e funda como somos, uns com os outros, limite e “deslimitação” permantes, a comunidade por vir. A comunidade que vem, vem de nós, os que sentido o Irreparável, o ser nos seus modos diversos e em nós, não o negam mas não se apropriam dele – inglória tarefa de tentar manter o que muda para outro modo, irá ser de outro modo, outro assim e outrossim, de nós apenas outro sim – mas não o querem ou desejam. Sermos singularidades sem identidades e sem estarmos cada um a pensar “sou assim” e “queria ser de outro modo”. Só há este assim como somos. Aceitar isto é também aceitarmos ser, não singularidades, mas SIMgularidades!

O SIM
Peço-o emprestado a Nietzsche que todos conhecem, mas não o peço emprestado para o explicar. Já todos o sabem, peço para o cantarmos. Assinarmos com ele o dia que já nasce, assim como nascer, cinzento ou ensolarado, assim como ele for o aceitaremos e, com ele, cada um de nós e todos, SIMgularidades que em todos os modos e de todos os modos somos a comunidade que em torno de uma Ideia, a de serpente, abraçaremos todos e cada um, como se nesta roda que é a Vida, o Irreparável, nós recebêssemos o que está suspenso em cada um e nisso viesse a bênção do Amor.

O Amor
“Ver simplesmente algo no seu ser-assim: irreparável, mas nem por isso necessário; assim, mas nem por isso contingente – é isto o Amor.” Op.cit., p. 86
Assim, só assim se faz o caminho da serpente. Com todos e com cada modo de sermos assim como somos, ainda somos. Não singularidades, mas SIMgularidades. Esperando o que está suspenso. Não vendo, relendo, revendo o que caiu, quem caiu, quem atirou ao chão. O que está suspenso deve vir do céu. Ser azul ou luz. Assim:

The Golden Bough - Joseph Mallord William Turner

Que cada um, na comunidade da serpente emplumada, sinta suspenso na sua vida o ramo dourado que Turner vislumbrou.